UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION (Trad. em português)
mascoteyeol
UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION

Autora: JHS_LCFR
Fanfic Original
Couples: Taoris (principal), Kaisoo, Baekyeol
Gênero: Angst, AU, Drama, Romance
Série: unstable-enjoyment.com
Palavras: 37.941
Tradução: Vitória
Correção/Revisão: Thaís


Sinopse:



Impossível. Não podia ser.

Talvez se pareça com ele. Mas não é possível que seja ele!

Na loja, a minha frente, observando atentamente o conteúdo dos cabides e selecionando diferentes calças para logo provar, estava meu ator favorito. Mas não era um ator de doramas, filmes ou minisséries...

... Era o ator principal de quase todos os vídeos secretos que possuia em meu computador, esses que eu via quando meus pais não estavam em casa e não conseguia mais conter a tensão em meu corpo.

Vocês o conhecem?


Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Extra 1
Extra 2


NOTA: Essa fanfic não me pertence, a tradução dela foi autorizada pela autora que me deixou traduzir toda a série unstable-enjoyment.com, que serão 4 fanfics. Eu não autorizo que esta tradução seja modificada, duplicada e levada a outras páginas. Bem, eu quero só agradecer as meninas do Bordel da Tayh que me incentivaram, porque sem elas não teria saído, e a Thaís que é um amorzinho e betou tudo pra mim. Eu estou bem empolgada porque essa foi a fanfic que me fez shippar muito Taoris e eu adoro ela demais, espero que vocês gostem também <333


UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION (Trad. em português) Extra - 2
mascoteyeol
Extra 2
(Número de palavras: 807)




Nós ficamos na casa de mamãe até encontrarmos trabalho e podermos nos mudar... Para a casa em frente. Não era a mais linda do mundo, mas era espaçosa e tinha potencial. Nós a pintamos como queríamos. Tao passou horas na frente da televisão vendo programas de designers de interiores e aplicou o que aprendeu nos cômodos. Não ficara nada mal e ele não aceitava um “não” como resposta.

Quando cumprimos um ano de nossa chegada, conseguimos marcar com os garotos de nos reencontrar. As vídeo-chamadas já não eram o suficiente e Tao morria por ver o anel de compromisso de Kyungsoo e Jongin com mais detalhes. “Atei pra não escapar”, ria o pirralho que agora era ator, mas um ator sério. Kyungsoo havia renunciado sua carreira de cantor para ser Chef, pois isso era o que queria. “Acredito que com isso terminei de me tornar independente de meus pais”, balbuciava meio orgulhoso, meio assustado. “Agora eu decido” e engolia a seco. Ele definitivamente estava assustado, mas estava lidando bem com a situação.

Chanyeol e Baekhyun... Uhm... Chanyeol e Baekhyun... Como dizer, o menor nunca aparecia e o mais alto sempre aparecia sem camisa, dizendo que vivíamos interrompendo-os. As poucas vezes que vimos Baekhyun, este tinha chupões até na orelha, mas havia ganhado peso e agora estudava para completar a carreira que Kyungsoo abandonara. “Eu adoro” assegurava. “Mas tenho que pedir a Chanyeol que... Que se acalme, porque eu sempre fico afônico depois”.

As conversas não duravam muito, eu ardia em vermelho vivo e Tao tapava minhas orelhas, dizendo que essas coisas não o afetavam mais.

E sendo também nosso aniversário, havíamos programado uma saída em algum restaurante fino e asquerosamente caro, só para vestirmos roupas elegantes e nos comportar como homens bem nascidos que pediam comida que nunca provaram, rindo educadamente enquanto bebiam champanhe de um balde cheio de gelo. Parecia divertido e eu morria de vontade de ver Tao de terno bem estiloso, com camisa, gravata e um relógio pesado no pulso.

Perdão, estou babando. Seguindo.

Como disse, havíamos programado... Mas faziam nove horas que chovia sem parar, trovejava, caia granizo e as ruas estavam inundadas. Quando não pude mais conter minha raiva comecei a chutar cadeiras, Tao saiu do banheiro ajeitando as mangas.

- Então não vamos poder ir né?

- Que merda, com a fortuna que...

AH. MEU. DEUS.

Que alguém me amarre e tranque no armário, ele estava maravilhoso.

Esses braços musculosos, lutando por sair dessas mangas apertadas, essa gravata que acariciava suavemente seu torso amplo e sua cintura marcada, esse cinto que eu ia demorar pra tirar abraçando seus quadris, essas calças que abrigavam suas pernas, mas (eu sabia) lhe incomodavam, essas coxas resistentes, esse bumbum firme e perfeitamente redondo...

Perdão, estou babando. Seguindo.

- Santo Deus. – suspirei, caindo em uma cadeira próxima. – Se troque, por favor, ou não irei me responsabilizar por meus atos.
Ele, muito travesso, começou a se aproximar com esse sorriso de canto no rosto, estava me tentando. Deus, ele estava me tentando e eu precisava me comportar bem se quisesse minha recompensa mais tarde. Quando ele sentou-se sobre mim, fechei os olhos com força e segurei meus pulsos por trás do encosto da cadeira. Controle, controle, controle, eu era o homem na relação, tinha força o suficiente para aguentar...

- Já faz um tempo que eu venho me perguntando. – dizia enquanto afrouxava o nó de minha gravata. – Qual dos meus vídeos era o seu favorito.

!!!!!!DDDDDDDEEEEEUUUUUUSSSSSSSSS!!!!!

- Digo. – continuou, se fazendo de desinteressado – Já que você via taaaanto, como dizer... Deve ter um... “Ranking”.

As cores pareciam misturadas. Escutava em chinês, pensava em coreano e balbuciava em inglês. A guerra de Tróia acontecia em minhas calças e eu saia perdendo, sem poder esconder meus estímulos descontrolados por sua culpa. Sua maldita culpa, ele me deixava louco.

- Então, Gege? – tirou a gravata e abraçou meu pescoço com ela, aproximando nossos rostos. – Me conte qual você gostava mais... A noite está apenas começando e parece que vai continuar chovendo.

- Eu... Você... Não posso. – encostei minha cabeça em seu peito, rendido. – Vou te matar... Puto.

Ele riu se divertindo, logo, olhou atrás de mim e não perdeu tempo.

- Tenho uma ideia. – disse enquanto atava habilmente minhas mãos.

- Q... Q... QUE?! EI!!

O abotoado de minha camisa foi sumindo a cada toque, deixando meu torso descoberto. Suas mãos passearam por debaixo do tecido, eriçando meus pelos e me dando força o suficiente pra destruir aquela cadeira e carregá-lo até o quarto.

- Já que você não fala, tenho uma proposta.

OQUEVOCÊQUIZERSÓTIREAROUPAAGORA!

- O que você acha de... Trocarmos?

Não entendi, sonhos selvagens e barulhentos tapavam meus olhos e ouvidos.

- De posição. – esclareceu.

Gastei seiscentos dólares americanos pela entrada e pela mesa naquele restaurante, seiscentos dólares americanos que eu nunca recuperaria.

Estava pouco me fodendo.



Agora sim, FIM =u=



Acabou Net Obsession \o/
Bom, pra quem não sabe existem 3 sides de NO e a primeira é a kaisoo Digital Skin. Eu devo começar a postar ela em março ou abril porque ainda estou traduzindo e DS é consideravelmente maior que NO, com capítulos maiores também, por isso devo demorar um pouco. Para quem quiser mais informações, eu devo avisar quando for começar a postar na minha conta do Social Spirit aqui: http://socialspirit.com.br/mascoteyeol

UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION (Trad. em português) Extra - 1
mascoteyeol
Extra 1
(Número de palavras: 777)



Tinha que ser ali. O endereço que ele me dera por telefone dava exatamente onde estávamos parados. Era uma casa simples de apenas um andar e com um adorável jardim dianteiro. Por quanto tempo ela ficava ali regando, cortando e decorando? Estava lindo demais. A pequena fonte feita de pedras e o bambu que oscilava derramando a água, golpeando as pedras e inundando o silêncio com esse ar de natureza que tanto faltava na cidade. As flores, plenamente abertas e brilhantes, balançavam com a brisa ou por causa de algum beija-flor que se aproximava em alta velocidade com seu corpo verde cintilante. Sem falar dos arbustos, eram perfeitamente redondos e bordeavam o pequeno caminho de pedras e madeira, que fazendo uma pequena onda chegava até a porta.

A porta que precisávamos bater, a porta que deslizaria deixando-me vê-la, provocando um golpe mortífero em meu coração. As lágrimas não tardariam em surgir, tanto de minha parte como da dela. Eu imploraria por seu perdão de joelhos e segurando o tecido de sua roupa, desesperado por escutá-la sussurrar um “está tudo bem”, “tudo bem, não foi nada”.
Tao apertou minha mão e eu o encarei deixando-o ver meu estado de nervosismo. Estava mordendo os lábios pelos últimos quinze minutos, enquanto tentávamos achar o endereço. Ele simplesmente havia me seguido sem fazer nenhum comentário, olhando ao seu redor fascinado pelo quão diferente era de sua cidade. Só quando suspirei e movi as pernas bruscamente ele abriu a boca e tentou me acalmar.

- É sua mãe, o quão difícil pode ser?

Pode ser muito difícil. Muito, MUITO difícil.

Respirei fundo, e se ela jogasse um sapato na minha cabeça? E se não me reconhecesse? E se estivesse irritada a ponto de não querer me aceitar mais como seu filho? Uma imagem pior se formou em minha mente. E se não aceitasse Tao? Ela poderia não gostar dele, poderia lhe causar uma má impressão, poderia não considerá-lo digno de seu Yifanzinho querido do coração...

- Não entre em pânico.

Mas era muito difícil manter a calma nesse momento. Tanto tempo sem nos falar, sem poder dizer o quanto sentia a falta dela, quanto a amava. De repente tive a inteligente ideia de sair correndo e me esconder debaixo de uma pedra por séculos e séculos, mas não havia pedra que pudesse me tapar sem me esmagar ao mesmo tempo. Tao pareceu ler meus pensamentos, pois deu um passo adiante, a ponto de pisar no caminhozinho.

- Espera! – o que estava fazendo? – Pelo menos me deixe contar até três.

Respirei fundo. Um dezesseis avos, dois dezesseis avos.

- Três – disse indiferente. Deus.

Ele bateu na porta e eu cruzei o caminho a passos largos, alcançando-o na altura do umbral. Me concentrei em não sorrir como se nada tivesse acontecido, mas tampouco podia chorar come se Tao, os garotos e meu celular tivessem morrido ao mesmo tempo. Ninguém atendia, comecei a ficar ansioso. Havíamos errado a casa, tinha certeza, um velho com um óculos enorme nos atenderia, ou um monge, ou uma menina de onze anos sozinha porque os pais foram ao supermercado. Eu deveria ter anotado o endereço errado e quem sabe a casa não fosse em Beijing, ou então, no Egito...

Escutei o deslizar da porta e senti meu coração parar. Me dei conta de que estava encurvado atrás de Tao, de costas pra ele e tapando os ouvidos. E então, pude senti-la, sua voz, sua voz delicada e temerosa por se encontrar com alguém como Tao. Sua hesitação enquanto botava apenas a cabeça pra fora de casa.

- Senhora Wu? – Tao perguntou, o puxei pelo cotovelo. Como podia perguntar isso assim, dessa forma, sem nem ao menos se apresentar primeiro?

- S... Sim.

Pude escutar Tao rindo enquanto chegava para o lado, ao mesmo tempo em que eu me virava corado e buscando seus olhos. Seus olhos compreensivos, que se abriram o máximo que puderam e começaram a chorar. Quando a vi correndo em minha direção soube que estava tudo bem, que estava perdoado mesmo que não merecesse isso; que estava feliz por me ver apesar da dor que a causei durante tantos anos.

Beijei sua bochecha com força e a levantei do chão.

Ela sem rodeios nos convidou para entrar e tomar um chá.

Nem começamos a falar direito e ela olhou para Tao interessada e ele se apresentou com uma pronunciada reverência. Lendo o vermelho em minhas bochechas e minha expressão abobada, não tardou em entender. Não apresentou objeções. “Você é muito fofo, Tao querido” sussurrou enquanto sorvia o chá de sua taça “Parabéns Yifan, tem um bom gosto”.

Minha mãe era a melhor mãe do mundo.



Extra 2




UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION (Trad. em português) Capítulo 15
mascoteyeol
Capítulo 15
(Número de palavras: 1.594)




- Vem comigo – sussurrei.

Minha visão ainda estava turva, as manchas continuavam ali. Alguns gritavam, outros choravam e mais de um xingava, ninguém pareceu me escutar... Fora Tao, que pareceu finalmente poder respirar, inflando o peito.

- Vamos juntos. – repeti, olhos fixos na mesa.

Observando-o pelo canto dos olhos, notei como se virava em minha direção lenta e tortuosamente. Sim, ele havia me escutado, estava surpreendido, sua respiração foi aumentando o ritmo suavemente, era quase imperceptível, talvez só eu tivesse notado. O que sentia por ele gerava uma espécie de conexão, uma devoção que quase podia ver através de seus olhos. Sua mão baixou da cabeça de Baekhyun, separou os lábios, mas não disse nada. De repente começaram a me sacudir violentamente.

- Estou falando contigo caralho!! – Chanyeol gritou pra mim. – Preste atenção!!

- Chanyeol calma!! – Kyungsoo segurou os braços dele, mas não adiantou de nada.

Minhas articulações se moveram sozinhas, segurei Chanyeol pelos pulsos e umedeci os lábios escolhendo as palavras com cautela, me assegurando de adicionar a carga emocional que eu precisava expressar para que eles me entendessem.

- Meus pais estão divorciados. – comecei. – Odeio meu pai. Ele sempre arranja um jeito de me afastar de minha mãe... Na noite que fui embora, nem sequer pude me despedir, pois ele veio me buscar de madrugada e me obrigou a deixar apenas uma nota. – senti suas mãos relaxando. – Eu não posso, não tem como... – ai que ótimo, já estava amolecendo. – Você não entenderia. NINGUÉM ENTENDE o quão envergonhado e humilhado me sinto... Cada dia em que estive aqui imaginava ela despertando preocupada por não me encontrar e depois chorando, segurando aquele papel imundo, sentada na cozinha... Você tem noção de como é? Alguma vez tentou se colocar em meu lugar? Pense Yeol, se você tivesse a oportunidade de voltar... Voltar pra ela e pra sempre...

Silêncio, ninguém me questionou. Havia conseguido as custas de destruí-los por dentro. Sim, mas eu estava cansado de ficar agradando todo mundo. Queria que minha opinião, meus desejos, contassem pelo menos uma vez.

- Então você vai embora? – sussurrou Chanyeol, e riu enojado. – Vai, como um covarde.

- Covarde?! – afastei suas mãos de minha camisa. – Covarde é você por não admitir que é lunático!

“Garotos, parem” Kyungsoo balbuciava, tentando nos afastar. Yeol o empurrou e ele caiu de costas, fazendo Jongin perder a cabeça.

- Seu gorila, não desconte nele. Ele não tem culpa de nada! – gritou, empurrando-o em direção as cadeiras.

- Chanyeol!! – Baekhyun correu até ele e o abraçou, o mais alto o afastou e começou a xingar, tentando bater em Jongin.

Kyungsoo gritava junto com Baekhyun, os dois pendurados nas costas de seus garotos, que trocavam chutes e socos com o que vissem pela frente. Eu mordia um dedo tentando conter a vontade de pegar uma cadeira e quebrar na cabeça dos dois.

- BASTA!!!

Todos pararam, Tao havia falado.

- Queiram ou não, Yifan vai embora. Vai voltar pra mãe dele. Ok?! Ou por acaso ninguém se preocupa com seus sentimentos, sua felicidade? – encarou a confusão que se instalara ao seu lado. – Esta não é a casa de vocês, parem de se bater!! Mostrem respeito! – se virou em minha direção e seu rosto mostrou uma corrente emocional inconstante. – Sobre o que você disse...

- O que ele disse?

- O que?

- Eh?

Abaixei para pegar a passagem no chão e peguei também o bolo de dinheiro, levantei a cabeça observando o relógio e torci a boca, faltavam quarenta minutos.

- Tao... Acha que isso dá pra outra passagem?







Antes de irmos embora, verificamos o envelope aberto, que surpreendentemente possuía uma carta escrita à mão por meu pai. “Diga que você é meu filho, não precisará de passaporte nem merda nenhuma”, dizia “Eu me encarregarei da casa, vá mesmo se não tiver bagagem. O importante é que não continue na Coréia”. Adorável meu pai.

- Não posso acreditar que você está indo. – Chanyeol bufou, envolvendo Baekhyun com seus braços. – Agradeça por eu ter as mãos ocupadas. – as tinham entrelaçadas com as do nanico. – Senão eu te arrebentaria.

Baek levantou a cabeça e o contestou.

- Deveria tratá-lo bem. Não vão se ver por um bom tempo.

- Calado. – disse corado. – Deixa isso pra mim...

E abaixou a cabeça, não podiam simplesmente não se beijar em público? Pelo amor de Deus. O pirralho não tardou em estalar.
- DO KYUNGSOO, ME BEJA AGORA OU FAÇA AMOR COMIGO NO BANHEIRO!!

- J-J-J-Jongin!!

- AGORA! – bradou, tinha fome de Kyungsoo.

- Linda forma de nos despedir. – disse, arqueando as sobrancelhas.

Um braço passou por debaixo do meu e Tao apoiou sua cabeça em meu ombro.

- Mesmo assim vou sentir falta deles.

- É claro. – tossi, chamando a atenção deles. – Não sei se perceberam, mas já estamos indo.

Resmungaram. Não queriam acreditar, estavam adiando o momento. Mas Tao e eu tínhamos planos, queríamos começar juntos do zero, em nosso país natal. Coréia do Sul havia sido emocionalmente dura com a gente, tanto para o bem quanto para o mal.

- É sério Hyung? Entendo o que você disse, mas mesmo assim...

- Yeol. – interrompi. – Às vezes as coisas não saem como queremos.

Franziu o cenho, apertando a mão de Baekhyun.

- Tem certeza? – “funcionou com ele”, foi isso que quis dizer.

- Pensei que você ficaria aqui pra sempre. – sussurrou Kyungsoo corado. – E pensar que... Aigoo. – suspirou e secou os olhos – Perdão, só um minuto.

E saiu em direção ao banheiro. Lembrei que ainda não podia ir embora, devia uma conversa séria com ele e um enorme pedido de desculpa. Pedi a Tao que mantivesse Kai distraído e segui Kyungsoo até alcançá-lo.

- Ei. – o peguei pelo pulso. – Tudo bem, é normal chorar.

Ele deu a volta, corado e soluçando. Não pude fazer nada além de abraçá-lo, sentindo seu corpo pequeno perder-se em meu peito.
- Sempre disse a mim mesmo. – confessei. – Que deveria ter me apaixonado por você, que deveria ter aproveitado antes que Jongin aparecesse, mas... Sinto muito, me dei conta de que não podia. Nunca pude.

- Eu sei. – sorriu. – Você mesmo me mostrou.

Ugh, foi como uma punhalada no estômago.

- Então você se lembra?

- Chorei a noite toda. – riu. – Você me deixou quebrado Hyung, me senti patético.

- Eu sinto tanto. – afundei meu rosto em seu cabelo. – Não sei como você conseguiu continuar falando comigo.

- Porque eu te amo, simples assim.

- Mais que Jongin?

Os segundos passaram.

- Não. Sinto muito.

Sorri, ele merecia mais do que o céu.

- Espero que possa superar o que eu fiz. – gemi humilhado.

Acariciou minha cabeça.

- Yifan?

- Uhm.
- Eu gosto de você.

- Eu também. – era melhor deixar as coisas claras antes de ir.

- Mais que o Tao? – brincou?

Eu quis rir, juro que tentei, mas saiu um grunhido rouco.

- Não. Sinto muito.







Realmente o passaporte não foi necessário, deixaram Tao subir sem nenhum. Vai saber o que meu pai tinha feito, tampouco me importava. Os assentos eram macios e confortáveis, ninguém se sentara atrás de nós, então pudemos nos acomodar, ficando tecnicamente deitados, compartilhando o apoio de braço. Depois de decolar e tendo o céu como paisagem, olhei a minha direita. Ele estava nervoso, se remexia constantemente e suspirava perdido em seu mundo.

- É grande demais para o assento? – sorri.

Ele me devolveu o olhar mordendo os lábios.

- Tem certeza disso?

- Sobre visitar minha mãe, sim. Ficarei com ela até que se canse de mim, depois de tudo, não fui um bom filho abandonando-a essa noite.

- E eu?

Busquei sua mão, poucas pessoas tinham os dedos tão longos como os meus.

- Não me diga que está arrependido, por favor, não.

- Não é isso. É que... – voltou a morder os lábios. – Ela vai querer saber... Você sabe, me conhecer. O que quero fazer... O que fazia.

- Está falando da página no site?

Assentiu temeroso.

- Tao, você não é obrigado a responder todas as perguntas. E mais, faremos o seguinte, me sentarei junto com você, ok? Quando não quiser contar algo, aperte minha mão ou coxa, e eu mudo o assunto. O que acha?

- Mas ela vai perceber.

- Mas não insistirá.

- E se depois ela te perguntar quando estiverem sozinhos?

- A abraçarei e direi que a amo e que senti falta dela. Sempre funciona.

Ele pestanejou pensando na resposta. Terminou dando de ombros. Nós estávamos nos mudando de repente, sem ter nada planejado, sem bagagem, com muito pouco dinheiro para nos virar quando chegássemos na China. Era um final assustador para nossa história, mas na realidade eu adorava as coisas feitas de improviso. Não planejar e fazer tudo espontaneamente não era o mais indicado, mas deixava lembranças maravilhosas.

Imagina daqui a alguns anos, eu e Tao, em uma cena qualquer em nossa casa, talvez, celebrando algum aniversário, rindo. “Lembra quando eu provoquei você na loja? Hahaha”, “E quando você desmaiou antes de...? Hahahaha”, “Ou quando meu pai nos interrompeu no banho e sem comentários para o escândalo que você fez naquele apartamento caindo aos pedaços”, “Mas foi ótimo”, “Com certeza”.

O que mais? Vamos ver...

Me chamo Wu Yifan, tenho vinte e três anos, nasci na China, vivi no Canadá grande parte de minha infância e adolescência, logo me mudei para a Coréia para ajudar meu pai, onde conheci meu atual namorado, Huang Zitao e... Ah, sim...

Também, todos os dias acesso a página www.unstable-enjoyment.com para ter certeza de que continua desativada. Por quê? Bem... É uma história longa demais pra contar... De novo.


Fim ;^;


Extra 1





Acabou Y.Y
Irei postar os dois extras simultaneamente na sexta.

UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION (Trad. em português) Capítulo 14
mascoteyeol
Capítulo 14
(Número de palavras: 2.359)



Estava a minha direita, com uma mão segurava um casaco, a camisa sem mangas abraçava seu corpo, aderindo-se a ele e deixando-me ver um pouco de sua pele devido ao material fino e translúcido. Os jeans negros, ajustados e rasgados nas coxas, mostravam suas pernas torneadas. A visão me entorpecia, podia ver sua clavícula, o trapézio; quase conseguia ver os traços que definiam seus abdominais. Ele se virou e voltou a me olhar, riu secamente e encarou a casa coberta de grafite, onde o vi desaparecer da última vez.

- Espera! – gritei enquanto o seguia.

Quase fechou a porta na minha cara, mas consegui me antecipar e entrei de alguma forma. Quando acendeu as luzes me deparei com um quarto horrível, deplorável. Sofás rasgados, móveis comidos pelas traças e sem portas, caixotes, garrafas quebradas e latinhas jogadas pelo chão; vômito em um canto e manchas amareladas nas paredes. Senti um embrulho no estômago, eu devo ter ficado verde. Tao se virou em minha direção, jogou o casaco no sofá (ou que quer que seja aquilo) e estendeu os braços.

- Gostou? – perguntou enojado. – Essa é minha casa, meu lugar, é aqui que vivo desde que tenho dezesseis. Sabia que eu não podia me negar, não é? Assim como eu tomei conta até pouco tempo de um menino, Baekhyun... Eles fizeram o mesmo comigo. Até terem certeza de que a possibilidade de eu tentar escapar já não existisse, eles não me deixaram em paz. – seus olhos brilhavam, transmitiam sua dor. – Logo veio você. – apontou com raiva pra mim. - E faz o que fez, me mostra que existe algo melhor que isso, e agora terei que voltar a me esconder aqui a vida toda, até que morra de fome. Por sua culpa. Como você conseguirá voltar para China, sabendo em que condições está me deixando?

O que era isso? Eu nunca...

Está me pedindo para ficar!

Está me pedindo para não deixá-lo!

Da forma dele, sim, mas está fazendo!

- Que parte da conversa você escutou? – sussurrei.

- Ver esse maldito envelope enquanto você estava na rua foi o suficiente. – espetou – Uma passagem só de ida pra China. Você acha que eu sou estúpido? Se pretendia desaparecer era melhor ter escondido as evidências antes, idiota.

Idiota?!

- Yah! – apoiei as mãos em meus quadris. – Você acha que eu quero ir? Acha que estou feliz por ter que abandonar tudo o que tenho aqui?! Como se eu fosse gostar de me despedir assim sem mais nem menos de Kyungsoo, Chanyeol, Jongin, GaEul!

Um nó se formou em minha garganta e tossi xingando. Escutei soluços e levantei a cabeça, Tao apertava os lábios tentando segurar qualquer barulho, mas não estava conseguindo.

- E eu Gege?

Meu coração parou. Ele estava em seu estado máximo de fragilidade: braços jogados ao lado do corpo, negando levemente com a cabeça, gemendo e perdendo a estabilidade de sua respiração.

Estava o matando. O matava a cada segundo.

- Tao...

Antes que ele tivesse a oportunidade de tapar o rosto com as mãos, corri em sua direção e segurei seu rosto, aproximando-o do meu, fundindo nossas bocas em uma tentativa desesperada de acalmá-lo, de acabar com toda essa dor. Ele resistiu a princípio, mas terminou se entregando, resignado. Estava feito em desastre, em lágrimas e tremores, se escondendo em meu peito rodeado por meus braços. Quando baixei para beijar-lhe a nuca, senti seus dedos trêmulos em meu cabelo, depois acariciando a cicatriz em minha testa. Eu significava sua última esperança para ser melhor, estar melhor.

- Não me deixe...

- Nunca. – assegurei, sentindo também vontade de chorar. Como eu poderia garantir aquilo, se nem ao menos sabia quando teria que ir?

- Não quero ficar sozinho de novo.

- Você não vai ficar. – sussurrei enquanto mordia sua clavícula e o escutava gemer, puxando meus cabelos. – Eu estou aqui, pra você.

Levantei sua camisa até a cintura, deleitando-me com os tremores que o provocava a cada toque, sentindo o frio banhando sua pele.

- Me ama? – chorou.

- Mais do que imagina. – suspirei, inspecionando mais uma vez seu rosto, seu peito, cravando as unhas, beliscando suavemente. – Te quero só pra mim, até que meu coração pare. – sorri me lembrando, apesar das lágrimas que faziam meus olhos arderem.

Suspirou meu nome como se fosse um pecado arqueou as costas deixando-me explorá-lo a fundo, seus quadris, omoplatas, sua coluna, as covinhas no final das costas. Me empurrou levemente. Encarava meus olhos enquanto me empurrava pra trás. Era uma mensagem, não duvidei em segui-lo. Terminamos em um quarto com quatro camas de solteiro, mas não me importei, não era necessária uma cama grande, almofadas ou lençóis de seda, nem sequer a roupa que vestíamos. Eu só precisava dele, ele, que se sentou na cama e esticou uma mão me puxando pelo queixo, atraindo-me. Ele, que não tardou em rodear minha cintura com suas pernas. Ele, que se desfez de nossas roupas ao mesmo tempo em que rogava para que não o deixasse nunca.

Ele, que pronunciou meu nome infinitas vezes quando nos tornamos um, com o mesmo deleite que eu cantarolei seu nome quando escutei pela primeira vez naquela maldita tenda de ramen.







Não me lembro de como terminamos no chão, mas eu nem sequer sentia nojo de descansar sobre minha camisa estendida no chão sujo de terra. Eu estava com terra nos braços, nos joelhos, nas coxas, nos glúteos, nos pés, e Tao, bem... Em todo o peito e nas costas. Penso que essa foi a nossa melhor noite, porque foi tudo de improviso, em qualquer lugar e em qualquer canto. Me lembro de que, a princípio estava triste por saber que seu corpo já estava acostumado ao que fazíamos, mas sua voz adquiriu um tom completamente diferente, hipnótico. Ele não gritava, não gemia, não chorava. Ele cantarolava, sorria, suspirava e me abraçava encantado. Meu nome parecia uma droga em seus lábios, pois cada vez que brotava de suas cordas vocais e saía do fundo de sua garganta, ele estremecia e buscava minhas mãos, entrelaçando nossos dedos. Eu em troca me inclinava e o beijava no meio do estômago, causando-lhe cócegas. Em nenhum momento senti o ímpeto de domá-lo, corrompê-lo ou machucá-lo como nos vídeos, só queria que ele desfrutasse. Queria dar o que ele quisesse, da forma que quisesse, beijando-o e acariciando-o como ele quisesse.

Nunca busquei uma recompensa ou compensação, só queria me assegurar de que ele deixasse de chorar por mim, por minha culpa, por culpa de meu pai e do azar que tinha toda vez que me aproximava dele.

Observei ao meu redor, fascinado. Havia teias de aranha por todos os lados, o papel de parede estava completamente molhado e o ar estava quente, tão quente que fazia você se sentir como uma almôndega gordurosa. Precisava de um banho urgentemente. Apoiando-me sobre minhas mãos, comtemplei Tao encolhido ao meu lado, mantinha uma mão sobre meu colo, e as duas pernas sobre as minhas, sua respiração era calma e estava cheio de manchas e terra no queixo, nas bochechas, por todo o torso, nos braços e sem falar da cintura pra baixo.

Na nossa primeira vez não conseguimos terminar, estávamos desesperados por nos soltar. A segunda vez foi aquela que não conseguimos concretizar devido a súbita tontura que tive, que repentinamente havia desaparecido, junto com minha impossibilidade de falar.

De qualquer forma, não poderei continuar frequentando a fonoaudióloga e a traumatologia.

Acariciei seus cabelos tirando a poeira. Acariciei seu rosto para limpá-lo, ele instintivamente suspirou e sorriu. Cada gesto, cada expressão que seu rosto adotava... Queria conhecer tudo, recorrer, amar, gravar em minha memória. Deixei que o dorso de minha mão o acariciasse da cabeça à cintura, quando seu corpo se mexeu pelas cócegas, ri e não pude evitar beliscá-lo de brincadeira. Ele continuou se mexendo até pouco a pouco despertar.

- Mhmm... Gege... Dói. – ria cansado. – Gege, Gege!

Ele se levantou e golpeou suavemente meu peito, o peguei pelos braços e o aproximei de mim, sentando-o sobre minhas pernas. Automaticamente me lembrei da noite anterior e senti vontade de repeti-la. Tao acariciou meu cabelo, brincando com a cicatriz do tiro. Não desprendeu os olhos dos meus e respirou calmamente, rosto sério e peito colado ao meu.

- Sinto muito por não ser como você esperava. – sussurrou. – Sei que queria que fosse em um... Um quarto melhor... Ou que eu fosse virgem, não sei.

Corei no mesmo instante, não era necessário que ele dissesse essas coisas. Amaldiçoei minha transparência, era assim tão fácil de ler?

- Mas pense assim. – sorriu apoiando seus braços em meus trapézios. – Você é meu primeiro namorado.

Wow.

Wow, wow, wow, wow, wow.


Fiquei estático, imóvel. Ele havia dito essa palavra com todas as letras. Disse querendo, não em um lapso. Queria ser meu namorado! Queria que esquecêssemos toda essa merda que acontecia ao nosso redor e fossemos um casal! Senti uma agitação no peito, um calor repentino, divertido. Era fantástico, parecia maravilhoso... Meu primeiro namorado; eu, seu primeiro namorado... Nossa primeira relação.

- Namorados?! – perguntei quase sem dar créditos a meus ouvidos.

- O que? Não somos? Eu pensei... – ele começou a ficar triste, tentando me soltar. Rapidamente o parei e voltei a abraçá-lo.

- Seremos, somos! É que, é que...

- Se você não quiser pode falar. Vou entender. – resmungou.

-... Pensei que você só fosse querer isso. Pensei que fosse demorar muito pra te convencer.

Ele pestanejou ternamente, surpreendido. Logo começou a rir.

- Você parece tão bruto, mas na verdade é sensível. Aigoo... – e continuou a rir.

Quando ele terminou, juntamos nossas testas, sorrindo.

- É uma pena que você vá embora. – suspirou. – Prometo não dormir com nenhum outro... E se eu precisar te sentir, usarei minhas próprias mãos. – riu.

Iiiiiiiiiii aí fudeu. Já sei, já sei que ele queria soar adorável, romântico. Mas lembrem que eu estava me aguentando desde os dezenove anos! Grunhi encantado e comecei a devorá-lo outra vez, mordendo-o, lambendo-o, chupando aqui e ali. Sentado sobre mim, ele não demorou em se acomodar, em ME “acomodar”, e começamos de novo. Nunca nos cansaríamos... Acabáramos de nos tornar namorados.







- ONDE DIABOS VOCÊS ESTAVAM? VOCÊ DESLIGOU SEU CELULAR SEU PUTO DE MERDA!!

- KYUNGSOO ENTROU EM MODO “HISTÉRICA” E COMEÇOU A CORRER DE UM LADO PARA O OUTRO, QUASE O FIZERAM CHORAR!!!

Chanyeol e Kai haviam passado a noite dormindo na entrada, mas nos viram de longe e começaram a se aproximar agitando os braços e chutando o ar. Gritavam, nos insultavam e nos empurravam. Pareciam vulcões em plena erupção de tanto que gritavam, cuspiam saliva em nossas caras pateticamente sorridentes. As veias em seus pescoços pareciam a ponto de explodir e tudo o que nós fazíamos era rir.

- YAHHHHHH!!!!

- O QUE É TÃO ENGRAÇADO??!!

Abrindo a porta sem soltar a mão de Tao, nos dirigimos a cozinha onde encontrei o envelope aberto e a passagem aparecendo entre o papel branco. O bolo de dinheiro continuava ali, causando nojo e vergonha de mim mesmo. Eu nunca contaria para Tao, não conseguia imaginar sua expressão se revelasse que o dinheiro que usamos para... Era meu. Resultado da minha perversão, da minha obsessão por ele.

- Sinto muito por ter aberto sem sua autorização, é que ele estava me dando um mal pressentimento.

Acariciei com os dedos a mão que segurava. Tinha medo de soltar e deixar de sentir seu calor, eu precisava dele, dependia dele mais do que imaginava, ainda mais depois dessa última noite, depois de descobrir o quanto ele se sentia sozinho somente por se imaginar longe de mim. Eu queria demonstrar o contrário, apesar de estar na corda bamba por culpa de meu pai e dessa maldita passagem de avião.

Escutamos Kyungsoo e Baekhyun chegando, os garotos provavelmente haviam avisado nossa chegada. Respirando agitadamente gritaram nossos nomes, preocupados, correndo até a cozinha. Soo me cercou em seus braços como uma mãe que reencontra o filho perdido. Para minha surpresa, Baekhyun correu até Tao que o recebeu com um abraço e batidinhas na cabeça, consolando-o.
- O que é isso? – Yeol já sabia o que era, mas se recusava a acreditar.

Quatro pares de olhos se fixaram no envelope aberto. O pirralho rompeu o silêncio, eufórico.

- Você vai embora?! – gritou Kai. – Mas que merda, sem avisar! Logo quando estava começando a ir com a sua cara!

- Não foi ideia minha, meu pai está me obrigando. Eu nem sei quando vou.

Yeol pegou a passagem e leu os dados. Enquanto seus olhos buscavam, números, datas, aeroportos, seu corpo foi encolhendo, estremecendo a cada item que lia. Deixou a parte colorida da embalagem cair de suas mãos e apertou os dentes, deixando um chute escapar em um sofá próximo, deixando todos nós espantados.

- Você não vai, eu não permito. – bufou, bagunçando os cabelos.

- Yeol, eu disse que não...

- O VÔO É PRA DAQUI A DUAS HORAS! DUAS PUTAS HORAS!

E o caos se instalou.

- Duas horas?!

- Não pode ser!

- Yifan faça algo!

- O que te impede de ficar?

- E nós, como ficamos?

As vozes entraram por meus ouvidos e ficaram pairando por minha mente, sem me deixar realmente raciocinar. Escutava um barulho constante ao meu redor, manchas se moviam de um lado para outro. Quando comecei a diferenciar os tons, os choros e os xingamentos, não encontrei Tao. Ele não falava, não dizia nada, eu nem sequer escutava sua respiração. Foquei a vista, virando em sua direção. Estava imóvel com uma mão na cabeça de Baekhyun e outra rodeando sua cintura, abraçado a ele. Seus olhos mórbidos fixados na passagem que descansava no chão; alheio a todo movimento que acontecia a nossa volta.

Senti minha camisa úmida, Kyungsoo se afastou de mim tapando o rosto.

Chanyeol começou a me insultar com lágrimas nos olhos.

Jongin mordia os lábios e tinha os olhos vidrosos.

Baekhyun soluçava escondido sob o abraço de Tao.

E Tao? Tao nada, nem sequer piscava.

Quando quis me aproximar dele, um pensamento impulsivo me deteve.

Você vai embora em duas horas.

E ele está morrendo.

Em duas horas o deixará sozinho.

Em duas horas terminará de matá-lo.

... Faça algo a respeito.




UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION (Trad. em português) Capítulo 13
mascoteyeol
Capítulo 13
(Número de palavras: 2.555)



Me apoiei na moldura da porta, pensava em falar com ele ali mesmo. Além disso, aquela posição tapava parte da vista para o caminho que dava até a cozinha, estando a sala e Tao a direita. Mamãe tinha razão, mesmo que eu me negasse a acreditar, ficava triste quando pensava que em alguns anos ficaria igual a ele. Sério, amargo, com o cenho franzido sempre, pele rachada, consumida pelo cigarro. Fiz um esforço para não me enojar. Era tudo o que eu não queria ser, por mais duro que soasse.

- Descubro que atiraram em meu filho e o mesmo não me deixa visitá-lo?

- Ambos sabemos que está mentindo.

- Quero ver como você está.

- Vá embora.

- Não pode me expulsar.

- Sim, posso.

- Sou seu pai. – bufou com voz esmagadora, oprimindo-me. – E eu te dei esse teto.

Não diga isso. Sabe que se eu pudesse ter escolhido...

Suspirei e mordi os lábios, esperando um sinal, uma indicação por parte de Tao. Passos ligeiros até o piso de cima. Perfeito. Bufei e cheguei para o lado, ele teve que passar quase sobre mim para entrar, roçando cotovelos e banhando-me com seu cheiro de queimado, cinzas.

- Quinze minutos. – disse sem me virar. – Preciso repousar e seu cheiro não me faz bem.

- Ah, por favor, como se você nunca tivesse fumado. – caminhou até a cozinha. – Você nunca serviu pra mentir. – subiu a voz enquanto sentava em uma cadeira. – Nisso puxou a sua mãe.

- Graças a Deus. – repliquei, alcançando-o. – De você só puxei o físico.

Ele riu. Golpe baixo?

- Como sua mãe está? – perguntou enquanto batia os dedos na mesa.

- Se você me desse dinheiro suficiente, como para pagar chamadas à distância... – apoiei-me nos cotovelos e entrelacei os dedos em frente à minha boca, era melhor estar preparado.

- Você sabe que só é uma peça, um suporte. Já te disse, não é essencial nisso.

- Então porque me trouxe e me obrigou a trabalhar nessa droga de loja?

- Porque você é o único que aceitaria tão pouco de salário e por resignação. – sorriu. – Por fora você é o doce filho que apoia seu trabalhador pai.

- E por trabalhador definimos...?

Tossiu, por seu olhar dava para ver que estava se divertindo. Sempre foi assim, ele chegava, dava golpes baixos por um lado e por outro, ninguém ganhava (talvez em sua cabeça ele sempre ganhasse e eu era apenas um pirralho mal educado), me dava uma notícia estarrecedora e depois ia embora. E eu por bem ou por mal acabava seguindo-o. Todas as vezes.

- Vamos embora. – anunciou, tirando um maço de cigarros do bolso.

Tsk.

- Não quero.

- Você volta pra China, sua mãe está te espera lá.

Espera...

Mamãe.

Mamãe na China.

Me esperando.

Ela quer me ver, e eu quero vê-la.

... Merda...

Preciso voltar.


Será que Tao estava escutando? Como Kyungsoo, Chanyeol, Jongin e GaEul reagiriam? Mas algo não encaixava.

- E você?

- Também voltarei. – meus olhos se abriram arregalados enquanto ele acendia o cigarro, e ria. – Nem pense que voltarei com vocês, visitarei seus avós e depois verei o que faço... Talvez tire umas férias.

- Com que dinheiro? A rede de lojas foi um fracasso. – baixei as mãos para conter a vontade de bater nele.

Apesar de estar com a boca ocupada, o canto de seus lábios se curvaram para cima, mostrando os dentes amarelos e cortando os lábios ressecados. Sua risada se confundia com a tosse, seus ombros se agitaram energeticamente.

- Você não faz ideia no que ando envolvido, filho. – tragou e voltou a sorrir. – Não faz a mínima ideia.

Suspirei, meu pai era um personagem que podia ser associado a um ponto de interrogação. Nunca sabia onde estava e o que fazia desde que se separou de mamãe. Talvez tivesse outra pessoa, a única coisa que sabia era que, ele quis abrir uma rede de lojas esportivas e que tinha fracassado. Quanto ao resto...

Pondo a mão dentro de seu casaco, ele retirou um envelope longo e em seguida deixou um maço de dinheiro, algo muito raro vindo da parte dele. Era enorme, o elástico mal resistia a quantidade de notas dobradas. Levantou-se e caminhou até a pia, onde deixou as cinzas do cigarro caírem.

- Preciso ir, desperdicei tempo o suficiente aqui.

Finalmente.

O levei até a porta da entrada, e o segurei quando colocou os dois pés fora de casa.

- De onde tirou esse rolo de dinheiro?

Ele riu novamente, me enojava. Me enojava com suas gengivas e dentes amarelos, sua língua podre e ressecada, seus lábios cortados e ressecados, sua pele marrom pelo tabaco e cheia de manchas brancas, sua voz áspera parecendo uma lixa, seu riso patético e debochado.

- Parte é seu, você mesmo me deu.

Quê?

Ele voltou a caminhar em direção ao carro e tive que segui-lo, apesar de que eu vestia apenas uma toalha e minha boxer molhada. Apoiando uma mão na janela do carro, me abaixei.

- Do que está falando?

Ele me encarou de rabo de olho, sem virar a cabeça. Esse jeito soberbo me deixava puto. O sorriso de novo, estava a ponto de bater nele.

- Como dizer... Lembra daquele aniversário que você passou...

A ficha caiu.

Ah, não.

Ah, não, não, não, não.


-... Sozinho? – sorriu malevolamente.

Queria enforcá-lo, matá-lo. Tudo passou na minha frente, os números, a contagem regressiva, conhecê-lo, adorá-lo, desejá-lo, a loja, o incidente na tenda de ramen, o edifício. O tiro na cabeça. Não podia ser, não podia, não o vi saindo dali.

-... Filho da puta...

Ligou o motor.

- Você foi uma fonte de rendimento segura durante anos. – gargalhou entre dentes – Quem imaginaria que você fosse tão pervertido assim?

E arrancou, desaparecendo na estrada, fazendo com que meus joelhos perdessem o suporte, deixando-me sentado no asfalto da rua, a mercê de qualquer carro que passasse por ali.

Não conseguia acreditar. Estava fervendo de raiva e vergonha.

Não pode ser verdade.

Por um momento - um breve momento - desejei despertar no hospital, confuso e sem nenhum corpo descansando sobre mim. Logo me corrigi... Desejei ter saído em busca de alguém no meu aniversário, sem me importar de ser repreendido por ficar todo sujo de barro.







- Você abriu o envelope?

- O que ele te disse?

- Você bateu nele?

- Jongin!

- Perdão...

- Ei, Fan, fala.

Chanyeol balançava as mãos na minha frente, tentando chamar minha atenção. Pestanejei e suspirei, não sentia vontade de falar. Vieram Kai, Kyungsoo e até o baixinho moreno pelo qual Chanyeol estava obcecado. O examinei dos pés a cabeça. Segundo Yeol, era mais velho do que aparentava, então dei-lhe uns vinte anos. Estava terrivelmente magro e parecia que poderia começar a chorar a qualquer momento. Emanava uma fragilidade, um medo... Havia nascido pra encaixar com Chanyeol, que lhe serviria de escudo com sua altura e prepotência.

Imaginei eles juntos, formavam um belo casal.

Imaginei meu pai negociando com o senhor Lee.

Um nó pareceu se formar na boca de meu estômago.

- Quem chamou eles? – perguntei apático, precisava ficar sozinho.

- Tao, mas ele deixou a porta aberta e não o encontramos.

Merda, merda, merda, merda. Teria escutado algo?

- Vocês fazem ideia de onde ele possa estar?

- Tal-talvez eu tenha. – disse o baixinho, levantando a mão e dando um passo a diante. – C... Conheço os lugares que ele frequentava.

Esfregou as mãos nervoso quando voltamos nossa atenção para ele. Esse garoto vivia com medo, nas poucas vezes que me olhava podia enxergar o pânico em seus olhos, mesmo que eu entendesse que eu poderia lhe dar medo. Convenhamos, meu aspecto natural somado a um recente tiro na cabeça. Chanyeol caminhou até ele, e o tomou pelo queixo obrigando-o a olhá-lo. Quem diria que Chanyeol poderia ser suave e romântico.

- Tem certeza Hyung? – perguntou, seu corpo parecia monopolizá-lo, e... Hyung?

- Mn. – Assentiu corado. – Já terminaram a investigação no apartamento, talvez ele esteja lá. – parecia mais confiante quando seus olhos encontravam os de Chanyeol.

Chanyeol meio suspirou, meio riu. Acariciou a bochecha do outro e o puxou pela mandíbula, vimos como seus rostos se aproximavam, mas o corpo de Chanyeol terminou por tapar nossa visão. Na mesma hora Jongin teve um ataque de histeria e começou a empurrar Kyungsoo suavemente.

- Por que não faz essas coisas comigo?! – o desafiava baixinho. – Eu também preciso de amor.

- M-m-m. – era cômica a forma como seu rosto ardia em vermelho. – M-mas eu não sei o que você quer!

- O que custa me beijar em público? Mas que droga, você e sua vergonha! Mereço uma recompensa essa noite. – determinou, apontando para o chão alterado.

- T... Tudo bem, só fale mais baixo.

Quis rir, mas não pude. Levantei disposto a me trocar. Seguia apenas com uma toalha, que já estava úmida (pelo menos ninguém pareceu se importar). Pedi licença e subi as escadas, encontrando-me com a cama feita, roupa para que eu colocasse em cima, e janelas abertas para airar o quarto. Como não podia descer enquanto eu falava com meu pai, ele deveria ter procurado algo para se ocupar.

Peguei as roupas e notei no mesmo instante a camisa preta de mangas, o cachecol azul e os óculos quadrados de armação negra... Sorri tristemente. Não fazia frio, mas aquilo era claramente uma mensagem, e pensar no que poderia ter acontecido seu meu pai não tivesse aparecido... Pensar no que poderíamos ter feito, como poderíamos ter terminado.

Senti duas mãos sobre meus ombros. Me virei, mas olhei alto demais, era Kyungsoo, que apertava os lábios em uma tentativa de sorriso. Seus olhos brilhavam. Apesar da vergonha que o fazia passar, Jongin alegrara bastante a vida dele. Acredito que o pirralho marcou um antes e um depois na vida de Kyungsoo, etapas completamente diferentes uma da outra.

- Se estivermos te sufocando, fale e nós vamos embora. Você parece mal, e sempre que está assim prefere ficar sozinho, não é?
Concordei sorrindo. Me conhecia melhor do que eu conhecia a mim mesmo. Sentei na cama e bati no espaço que deixei pra ele. Mesmo sentados ele mantinha o rosto para cima para poder me olhar.

- Quer um abraço? Ou fazer catarse será melhor?

Ri secamente, passei uma mão pelo rosto e levantei a franja, tentando diminuir a tensão e essa sensação ruim no estômago. Terminei optando pelo abraço, que ajudava bastante apesar de Kyungsoo ser tão pequeno. Ele apalpava suavemente minhas costas, ao ritmo de uma canção que cantarolava. Uma canção que ele cantarolava sempre que ia visitá-lo em seu trabalho.


Baby don´t cry, tonight

Depois que a escuridão passar

Baby don´t cry, tonight

Será como se nada tivesse acontecido



Me agarrei mais a seu corpo. Eu realmente tinha que ter me apaixonado por Kyungsoo. As coisas teriam sido muito mais simples dessa forma, tudo acabaria rápido e de uma maneira feliz. Mas parece que a gente não tem esse poder de escolha, parece que alguém (o destino, Deus, o que seja) planta uma pessoa no nosso coração e a gente tem que se virar, mesmo sem conhecê-la, vendo-a de longe e tendo que aguentar toda essa merda sentimental, que pode se transformar em algo correspondido, ou pode acabar com a sua vida. Eu pensei que estava me aproximando da primeira opção, mas agora parecia ter um pé de cada lado... O pior de tudo era que agora eu não sabia lidar com a situação.

Soo parecia me acariciar com sua voz a cada nota que cantava, se eu dizia que era bom em consolar, bem, não chegava nem aos pés de Kyungsoo nisso. Ele... Não sei, era simplesmente sua atitude de tentar animar as pessoas, sua disposição em ajudar no que fosse e deixar de lado seus próprios problemas e concentrar-se nos dos outros, porque ele realmente queria nos ver felizes.

Apertei os lábios quando deixou de cantar, minha cabeça ainda estava entre seu pescoço e o ombro.

- Soo?

- Uhm. – cantarolou, sem se mover.

- Te amo.

Não pensava em abandonar Tao, aquelas duas palavras saíram mais como um agradecimento do que uma declaração de amor. Por sorte ele entendeu e riu.

- Eu também, eu também.

Me afastou suavemente.

- Se apresse, precisamos encontrar o Tao.







Ir ali com Kyungsoo era arriscado demais, me sentia mal por ter que mandá-lo pra casa, mas sussurrei discretamente no ouvido de Kai que o mantivesse ocupado. Ele não apresentou nenhuma objeção, inclusive, lambeu os lábios em total acordo. Seguimos o cachorrinho de estimação de Chanyeol (irônico, não?), e ele nos guiou por ruas diferentes, pois pedi que não passássemos por nenhuma rua que tivesse tendas de ramen. Ele nem sequer perguntou o motivo.

“Sabia que alguém estava nos espiando, fiz sinais para que Tao entendesse e fomos embora”, respondeu corado sem me dirigir o olhar, enquanto Chanyeol esfregava seu braço suavemente, tentando acalmá-lo. “Estava sem dinheiro esse dia” agregou. Eu me limitei a concordar. Trabalho como espião: totalmente descartado.

- Desculpe por não ter te ajudado. – sussurrou cabisbaixo. – Mas Tao me apressou e disse para não dar importância.

- O que é perfeitamente compreensível. – lhe disse. – Se alguém estranho estivesse te seguindo, você pararia para ajudá-lo?

Apertou os lábios, pensando.

- Acho que sim... Afinal, ele poderia acabar me ajudando em troca.

Que inocente, pensei surpreendido.

Sinto por ele ter Chanyeol como alma gêmea.

Olhei para o mais alto e sorridente, e arqueei uma sobrancelha. Sua expressão praticamente dizia “Tenho um namorado pequenino, terno e inocente, que eu fodo encantado” Tentei imaginá-los juntos. Como o garoto fazia pra suportar o peso de Chanyeol e toda sua magnitude corporal? Com certeza lhe parecia enorme, magricela...

- Precisamos dobrar aqui e chagaremos. – disse Baekhyun (assim se chamava) e parou, apontando o lugar da última vez.

Havia um cachorro latindo e um gato completamente eriçado na entrada, o pedaço de lixo podre entre eles devia ser o motivo da briga, as sacolas de lixo rodavam pelas ruas, espalhando seu conteúdo, e o entardecer aqui já podia ser interpretado como noite, pois as luzes dos faróis falhavam e piscavam, causando calafrios a cada passo que dávamos, com medo de que algo saltasse do escuro para nos comer vivos.

Me distrai com o constante tremor de Baekhyun, não devia ser agradável pra ele voltar, muito menos se o sequestraram e o mantiveram em cativeiro ali. Chanyeol me pediu um momento a sós e eu neguei.

- Voltem, eu encontrarei o caminho na volta sozinho.

- Mas...

Me aproximei do ouvido de Chanyeol, sem afastar o olhar de Baekhyun.

- Ele está assustado, não deveríamos tê-lo trazido aqui. Vai com ele... Tao e eu precisamos falar a sós, é algo apenas da nossa conta.

Ele demorou um pouco, mas pareceu entender. Batendo suavemente em minhas costas disse:

- Boa sorte, se não voltar em três horas vamos vir te buscar.

Me distanciei deles dobrando a esquina, ao observar o barraco que queria entrar semanas antes, me subiu um calafrio na nuca. Estava me borrando de medo, na verdade, não queria entrar. De um lado da porta, um homem esfarrapado sobre um papelão dormia, os típicos disparos ainda eram ouvidos ao longe, estremecendo os animais, fazendo-os ladrar.

E eu precisava entrar ali. Super. Por sorte não precisei fazê-lo, não por um momento.

- O que está fazendo aqui?




Net Obsession está quase acabando, só faltam os dois caps finais, e os dois extras, que são curtinhos, então eu decidi postar logo tudo na semana que vem. Então é isso aí, semana que vem NO acaba ;--;

UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION (Trad. em português) Capítulo 12
mascoteyeol
Capítulo 12
(Número de palavras: 2.535)


- Aish, tá tudo bem. – disse, batendo no meu traseiro de brincadeira – Ya! Saia daqui!

Me recusei. Havia passado pelo pior momento de minha vida.

- Yah, situações como essa acontecem toda hora, no set havia mais de um assim. – acariciou a parte de meus cabelos que ainda era visível. – Além disso, deve ter sido a tontura. É como dizem, a primeira vez é pela sorte, não é grande coisa.

Merda, além de tudo, ele ainda sabia que ia ser minha primeira vez em vinte e três anos. Droga, por que eu contei? Eu, sempre tão suscetível a ataques de sinceridade...

- Ei. – o senti se aconchegando ao meu lado, abraçando o lençol que me cobria até a testa. – Quando você se recuperar vamos tentar de novo, ok?

Eu estava envergonhado demais para falar, até para existir. Logo quando finalmente o tinha aí disponível, entre suor e ofegos, chega na hora e... Duramos menos de quinze minutos. O calor e o esforço físico foram demais pra mim, terminei ficando tonto e como estava sentado, caí de costas na cama. Ele tomou um susto tão grande que foi impossível continuarmos. Acabou que Tao me trouxe um copo d’água e um pacote de açúcar com uma colher. Se duvidasse eu deveria ter açúcar saindo até pelo umbigo do tanto que ele me obrigou a comer.

Para a pressão baixa acredito, ele dizia.

Tive que aceitar. Acabei descobrindo um lado muito astuto dele.

- Escuta... É... Você. – ainda não sabia meu nome, isso acabou destruindo completamente minha autoestima. – Nós não precisamos fazer isso hoje, você vive sozinho e eu ainda não consegui um lugar pra ficar.

Ah, ele tinha razão... De qualquer forma, meu corpo não podia ter falhado alguns minutos atrás. Deus decidira que havia me dado mais do que eu merecia ou estava me fazendo de palhaço e brincando com a minha vida.

- Está me escutando? – sussurrou, aproximando-se de meu rosto, já que eu estava de costas pra ele.

Assenti levemente. Não me atreveria a olhá-lo depois de semelhante mancada, semelhante humilhação. Todo aquele teatro de garoto clichê e sensível para depois ferrar tudo. A pessoa que atirara em mim ia pagar caro, muito, muito, muito caro.

Uns dedos frios e longos lutavam delicadamente com o cobertor que estava sendo segurado por minhas mãos. Terminei cedendo com medo de que ele se ofendesse e fosse embora, aí sim eu morreria. Ele me descobriu completamente, passou por cima de mim e acabou se deitando do outro lado, encolhido no pouco espaço que havia.

- Pode chegar um pouco pra lá? Estou quase caindo.

Seu rosto estava fervendo, vermelho como um tomate. Levantei um braço e ele utilizou o outro como almofada. Quando o aproximei de mim pelas costas, senti suas pernas entrelaçando-se com as minhas, seu cabelo acariciando meu pescoço e o nariz roçando contra meu peito. A sensação foi mais reconfortante do que esperava, então me agarrei a ela, fechando os olhos e sentindo seu perfume.

- Qual seu nome? – perguntou em um sussurro.

- Wu Yifan, Kevin Wu internacionalmente.

- Uhm, entendi. Quantos anos tem?

- Vinte e três, e você?

- Dezenove... Gege – respondeu.

O número me atravessou como uma lança. Tão jovem? Desde quando trabalhava no site? Se podia chamar isso de trabalhar.
- Posso ser curioso? – confessei.

- É claro.

- Por que “Wushu ZT”?

- Pratiquei Wushu quando era pequeno. Quase todos em minha cidade me reconheciam por isso. ZT... Bom, é por causa do meu nome. Zi Tao, Huang Zi Tao.

- Entendi, eu sempre quis saber.

- De que parte da China você é?

- Guangzhou, e você?

- Qingdao.

- Ah.

- Uhm.

O barulho do relógio foi o único que se escutou depois disso. Me sentia triste, não soava como uma conversa normal, parecia que estava me estudando. Quero dizer, ele ia dormir comigo sem nem mesmo saber meu nome. Eu queria algo mais que isso! Sei que a primeira vista eu pareço um bruto e dou medo, posso parecer até mesmo um pervertido, mas também sou sensível sabe... Queria continuar a conversa, mas a pergunta que tinha em mente era muito incômoda, muito imoral, muito indiscreta. Ele me mataria se eu a fizesse. Por sorte ele se adiantou.

- Gege... – me derreti ao escutá-lo me chamando assim. Ele levantou a cabeça para me olhar. – O que você gosta em mim? – perguntou.

Isso me pegou de surpresa. Teria sido melhor se eu tivesse falado antes.

- Quero dizer. – apressou-se em se corrigir – O que... O que aconteceu para que você se interessasse por mim?

Era uma armadilha. Como vocês responderiam uma pergunta dessas? Pestanejei infinitas vezes, buscando possíveis respostas, desculpas, perguntas para retrucar. Mas quando me encontrei com seus olhos negros tristes perdi totalmente minhas forças, me dei conta de que estava tentando mentir pra ele, estava tentando inventar toda uma história sem pé nem cabeça com o intuito de não o ofender, coisa que ia acabar acontecendo de uma forma ou de outra.

Logo tudo veio a minha mente, como se fosse um flash, e deixei os olhos em branco.

- A culpa foi de um seis de novembro chuvoso. – respondi, suspirando.

Ele pestanejou sem entender.

- Foi meu aniversário. – expliquei. – Estava chovendo e ninguém veio, então por casualidade encontrei o seu anúncio. – ele assentiu, talvez estivesse disperso em seu próprio mundo, mas me encarreguei de trazê-lo de volta a Terra. – Você foi o melhor presente de aniversário, é sério.

- Aish... – me golpeou suavemente. - Argh! – Queixou-se, escondendo o rosto.

Adoro ser clichê, consigo o que quero e muito mais. Além disso, adoro vê-lo corando cada vez que digo alguma coisa asquerosamente melosa ou romântica. Me dá nervoso quando penso no que disse, mas sei que ele gosta.

- E você? – Inquiri. – O que estava fazendo no hospital? O que fiz para que cuidasse de mim? – o beijei na testa.

Ele respirou fundo, enquanto recuperava a cor de seu rosto. Enquanto relatava, suas mãos viajavam por meus braços, subiam até minha orelha e desciam por meu peito, sem se dar conta traçava caminhos de fogo a cada toque, a cada poro de minha pele.

- Quando te meteram na ambulância. – Ótimo, outro que não ia me contar quem havia disparado em mim. – O garoto alto. – Yeol? - me disse enquanto te atendiam improvisadamente, que eu precisava ir ver como você estava, que você tinha entrado ali por mim. E quando fui e me encontrei com Kai e os outros, todos me disseram o mesmo. Que era o mínimo que poderia fazer, esperar que você despertasse.

Ou seja, você não sente nada, perfeito, obrigado por deixar claro.

Meu peito começou a doer. “O mínimo que poderia fazer”? Ele esperou por obrigação? Então o que estava fazendo na minha cama? Ele podia ir, não precisava de sua compaixão, talvez por isso tenha chorado quando passou pelo que passou no quarto, estava calando sua consciência, se sentindo culpado.

Você não é nada, não representa nada.

- Entretanto...

Entretanto nada, me solta.

Quando comecei a me desfazer de seu abraço, suas palavras me congelaram.

- Você me pareceu fofo na loja. Foi o primeiro que não se atirou em mim ou tentou me obrigar a fazer coisas que não queria. Você só ficou lá, me olhando, a uma distância prudente. – desenhou círculos outra vez, na altura de meu coração, parecia gostar de fazer isso. – Fora isso, não sei... Você é alto, bem apessoado, beija bem... E me pareceu fofo com o incidente das calças, todo corado e trêmulo. – riu.

“Mas são todas pretas”. A sim, isso. Contive a vontade de rir.

- Embora eu ache que o mais importante foi... – havia mais? – Quando você me disse aquilo no caixa. – acariciou a boca com a mão livre.

“Se o que você faz, faz contra sua vontade, eliminarei minha conta, eu juro. Não deve ser agradável estar na sua posição”.

- Então você gostou disso?

- Muito. – sorriu sem deixar de acariciar os próprios lábios. – Senti que alguém estava tentando se colocar no meu lugar, mas tive que rir pra não soar frágil, para que você não soubesse que, na verdade, estava me sentindo verdadeiramente agradecido.

- Por que você riu? – me acomodei, apoiando meu peso no cotovelo, sua almofada. Vê-lo desde cima era novo e me fascinava. – Você foi embora, lembro que me deu as costas e continuou rindo.

- Não queria colapsar e te pedir ajuda. Você não ia ter ideia no que estaria se metendo. – respondeu deprimido, pousou a mão em meu peito. Parecia ter obsessão com as batidas do meu coração. – Sabe, no hospital eu tive medo...

- Medo? De que?

Ele encarou fixamente suas mãos, os lábios apenas se separaram e as palavras saíram como um sussurro. Seus olhos a ponto de chorar, deviam estar borrando sua vista.

- De que você apagasse.

Busquei sua mão com a minha e entrelaçamos os dedos. Tinha medo de que eu morresse? Huang Zi Tao? (sim, eu lembrava, tendo escutado apenas uma vez). Estava se mostrando vulnerável comigo, sensível, frágil. Isso significava que confiava o suficiente em mim para que eu pudesse desenvolver o papel que sempre fiz de melhor: consolá-lo, oferecer meu ombro, meu ouvido. Ah, e também, ele gostava de mim, ressaltemos isso, por favor. Gostava de mim, pois tinha medo de me ver morrer. Deveria estar sorrindo como um estúpido, porque ele se sentou e virou-se me soltando, para logo tapar o rosto.

- Yah, tá achando graça no que? Estou feliz!

Ele continuou rindo, suspirei sem tirar o sorriso dos lábios e me atirei sobre ele, escutando risadas genuinamente infantis brotarem de seus lábios, enquanto seu rosto relaxava e seus olhos transformavam-se em meias-luas, brilhando alegremente, enchendo-o de vida, fazendo-o feliz.

Quero te ver assim todos os dias, me decidi.

Farei você se sentir assim todos os dias, até que meu coração se apague.








Comprovamos na manhã seguinte que eu não tinha nenhum buraco na cabeça. O tiro havia sido na testa e eu tinha alguns pontos, mas nada que tivesse me tirado cabelo. Suspirei, bagunçando minha franja. Tao ajudou na zona da nuca.

- Geralmente o loiro não fica tão bem. – comentou desinteressado, mas eu sabia a que ele estava se referindo.

Ele me acha bonito.

Fuck Yeah.


Ampliei meu sorriso enquanto dava de ombros.

- Quis fazer um par de mechas para conseguir alguma espécie de contraste, mas não foi grande coisa. – Não, imagina. Passar cinco horas no salão de beleza, lendo revistas de fofoca como uma velha não é grande coisa.

- Uma vez eu pintei o meu de vermelho. – disse. – Mas ficou um desastre, parecia peruca, acabei voltando para o preto e depois... – mordeu os lábios.

- Depois?

- Não me deixaram tingir mais.

- Quem?

- “Eles”.

- Ah.

Ponto sensível, momento desconfortável. Precisava mudar o curso da conversa, enquanto lavávamos o rosto, uma ideia um tanto travessa cruzou minha mente.

- Ah, quero tomar banho. Estive a semana toda com sangue seco e devo estar cheirando como mil diabos.

- Na verdade não. – respondeu corado. – Você cheira muito bem, eu gosto.

Tranquilo, ele não pode escutar seu coração desesperado.

Tranquilo.


Controle a cor de suas bochechas. Controle!

Trocamos olhares por alguns segundos. Como ele conseguia ser tão terno e delicado, considerando as proporções de seu corpo e seu antigo trabalho? Repito, se a isso podemos chamar de trabalho...

- Bem. – tossiu. – Vou deixar você tomar banho sozinho. – e encarou a porta.

Sorri as suas costas: Showtime.

- Oh!

Me balancei sobre a pia, fingindo bater contra a torneira de água quente. Abraçando o mármore, sacudi minhas pernas enquanto tentava me levantar.

- Você tá bem? – gritou se aproximando.

Tapei o nariz com uma mão e assenti.

- Acho que sim, não foi nada, só uma queda de pressão. – tossi. – Aigoo, não sinto minhas pernas.

- Vamos pra cama, eu te deito.

- Não, não. – suspirei “frustrado”. – Quero tomar banho... Mas desse jeito... Aigoo...

Deixei que ele processasse a ideia e tapei a boca para não rir, senti suas mãos em meus quadris me levando até a banheira.
- E-Então... Eu t-te-te ajudo.

- Ah, não, não, por favor, você pode continuar dormindo ou ir se vestir, não quero ser uma moléstia. – disse enquanto tateava a torneira bruscamente.

- Não, é sério. Você se banha e eu te seguro, não entraremos sentados. – protestou fechando a porta de vidro do box e abrindo a torneira.

Meus pelos se eriçaram, a água saiu gelada, tremi dos pés a cabeça sentindo cada fibra de meu corpo sofrendo descargas elétricas com cada gota que golpeava meus poros. A água caiu diretamente em minhas costas e consequentemente arqueei meu corpo chocando-me com ele, que ficou encurralado entre a parede e eu.

- Perdão. – titubeou. – Pensei que se saísse quente você iria ficar ainda mais tonto.

Quando ele esticou um braço pela lateral de meu corpo para abrir a água quente, fechei seu pulso em minha mão. Já não sentia frio nem calor. Só sua pele roçando contra a minha. Sei que disse que precisava descansar, mas o instinto não me permitia. Além disso, eu o tinha ali em pessoa, de frente pra mim, me olhando com olhos travessos. O sorriso descarado da loja reapareceu. Bufei.

Filho da...

Ele sabe. Estava esperando.


Ele ficou na ponta dos pés e acariciou meus lábios com um sussurro.

- Me deixe abrir a água quente. – colou seu corpo no meu, sua boxer encharcada contra a minha me deixou “vê-lo”. Estávamos praticamente prontos.

- Você quer... – ri enquanto o puxava pela nuca.

... E a campainha filha da puta soou.

A maldita, odiosa, irritante e ensurdecedora campainha soou, alertando-nos.

- Atende, eu estou molhado. – se esquivou.

- E eu não?! – exclamei.

- Ei, a casa é sua, não minha.

Enrolei uma toalha na minha cintura, e bati no vidro do boxer para assustá-lo, eu podia ser astuto, altivo, terno, engraçado e brincalhão. Enfim, podia ser tudo o que ele sonhava e muito mais. Secando os pés no tapete do banheiro, saí até a sala (o banheiro se localizava no andar de baixo) e dobrei em direção à porta. O ruído do alarme de um carro ativando-se chamou minha atenção. A visita pensava em ficar, mas nem Soo nem Yeol tinham carro.

Polícia? Investigadores? Viriam por Tao ou por mim?

Quando abri a porta comprovei que era pior, muito, muito pior que a polícia, investigadores, pessoas relacionadas à página na internet, um fanático sasaeng de Tao. Me dei conta de que fazia um mês que não o via, e os anos pareciam ter feito ainda mais efeito nele nessas semanas. Vestia a mesma roupa de sempre e seu semblante era calmo, mas claro, a forma de suas sobrancelhas indicava o contrário. Já possuía bolsas embaixo dos olhos e pés de galinha, me perguntei quando foi a última vez que o tive assim tão perto.

- Tem um minuto?

Escutei passos ligeiros próximos. Tao devia ter terminado. Engoli a seco.

- Na verdade não.

Franziu o cenho, mesmo que de primeira as pessoas não se deem conta.

Mas eu sim, porque puxei as sobrancelhas dele. Ele cruzou os braços disposto a não ir embora.

Bufei.

- O que você quer pai?




UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION (Trad. em português) Capítulo 11
mascoteyeol
Capítulo 11
(Número de palavras: 2.763)


É claro que iam me chamar para depor, com certeza o formulário que preenchi no hospital fora entregue a polícia, que esperava pacientemente que “o loco do tiro na cabeça” se entregasse sozinho. Pelo menos tiveram a cortesia de me levar primeiro na traumatologia e na fonoaudióloga.

Incrível os resultados que consegui em três horas... O “r” antes era um obstáculo do tamanho de uma casa, mas agora podia pronunciá-lo. Até recuperei a voz levemente. Soava como alguém resfriado, mas já era alguma coisa. Agora estava nessa maldita sala que parecia aquelas que vimos em filmes. Paredes cinzas, uma mesa negra no meio, uma janela negra por onde me vigiavam e o detetive, oficial, ou quem quer que fosse esse que me perguntava tudo, quase gritando quando eu lhe dizia que não lembrava de muita coisa.

“Algum rosto, algum nome, o que for” bravejava. Cuspia em mim também, um nojo. “O que quer que eu diga?” falei, “Com sorte consigo falar”. Era verdade, eu estava suspirando a duas horas e meia, somada as quatro horas anteriores de sessão, minha garganta estava uma droga.

Quando (Graças a Deus) a conversa terminou, ele disse que eu poderia ir embora, não sem que ele saísse primeiro. E quando apareci no corredor da morte, onde os gritos dos outros oficiais eram abafados, GaEul se levantou surpreendida.

- E?

Minha garganta ardia tanto que apenas dei de ombros e sacudi a mão. Nem muito bom, nem muito ruim, não fui crucial para a investigação do Senhor Lee (responsável pela criação da página), mas também não fui um inútil sem informações para dar (lamentavelmente lhes contei quanto os afiliados pagavam por semana, mês ou ano. Contei o desenho da página e mais ou menos o que se fazia ali... O cara não deve ter demorado a perceber que eu tinha uma conta). GaEul suspirou e olhou a sua volta antes de falar baixinho.

- Estavam procurando Jongin também. – me disse com os olhos vidrados. – Nós estávamos contigo no hospital quando foram na casa de Kyungsoo. – mordeu os lábios. – Ele vai admitir o que fazia e... – ela tapou a boca, gemendo. – Provavelmente eu vou ser punida por não ter impedido ele, sendo maior de idade.

Merda, isso nem havia passado por minha cabeça! Ela parecia tão sozinha, tão triste... A ficha havia caído. Ia receber o que de certa forma, merecia. A abracei e a apertei contra meu peito, sentindo-a fria, inconsolável e derrotada.

- Eu não queria que ele fizesse essas coisas... Mas nunca o encontrava em casa ou no colégio e não aparecia até que meu turno começasse... Nunca consegui convencê-lo a se concentrar no colégio e fiz com que ele terminasse, terminasse... Yifan, não quero ir pra lá! – gritou tremendo.

Mas o que eu poderia fazer? Ela teria que ir, lamentavelmente. Tenho certeza que ninguém queria que GaEul parasse atrás das grades, mas o fato de que ela não estava lá para Jongin quando ele precisava, me irritava... Mas bem, minha cabeça estava uma confusão de pensamentos e sentimentos, a única coisa que pude fazer foi acariciar a cabeça dela e beijar-lhe a testa, em sinal de que estava ali para apoiá-la.

- Aigoo, o que eu vou fazer?

Nesse momento uma porta a nossa esquerda se abriu, Kai saiu com os olhos vermelhos e soluçando, sem falar da áurea de tristeza que emanava; cabisbaixo e com os ombros tremendo constantemente. Kyungsoo saiu por uma porta mais distante de nós, despenteado e desarrumado. Quando se encontrou com Jongin o abraçou. O mais baixo deixou toda sua angústia sair em gritos de dor e súplicas. “Faça com que acabe, me faça esquecer”, dizia. Infelizmente não entendi ao que ele se referia, mas eu tinha uma pequena noção. GaEul me soltou e tapando o rosto com as mãos, foi até seu irmão e o abraçou, rogando seu perdão e repetindo o quanto o amava. Eu me sentia vazio. Nenhum deles merecia isso, não faziam aquelas coisas porque gostavam. Precisavam de uma fonte de renda urgentemente, segundo o que GaEul e Kyungsoo me contavam. Kai... Kai errara, e agora sua irmã teria que pagar o preço. Entretanto, Jongin ia ter o pior dos castigos, as lembranças, as lembranças e as consequências psicológicas de tudo aquilo.

Kyungsoo vai ajudá-lo, tentei pensar positivamente.

Kyungsoo... O ama, vai fazer tudo o que esteja a seu alcance.


Este não se soltou em nenhum momento de Jongin, mesmo quando vimos Chanyeol e Baekhyun saindo por outra porta, uma das primeiras, e mais longe de nós. Me virei para ver quem era. Quando o vi e nossos olhares se encontraram, o mundo pareceu parar. Pude ver a vergonha, o pânico e a vontade de fugir. Quando se virou em direção à saída da comissária, caminhei como pude até alcançá-lo, o peguei pelo pulso e o virei na minha direção. Ele gemeu pela força que empreguei e se safou. Também possuía os olhos vermelhos e o rosto pálido.

- Yifan... – sussurrou resignado, não poderia escapar pra sempre. – Yifan eu sinto muito, é sério, tudo isso poderia ter sido evitado se...

Levantei uma mão, tentando lhe dizer que estava tudo bem, que o importante era ele. O peguei pelos ombros e abaixei um pouco a cabeça, perguntando indiretamente. Ele pareceu entender e suspirou.

- Deu tudo errado. – disse, o brilho característico de seus olhos havia desaparecido. – Você, meu braço, tudo poderia ter sido evitado se eu tivesse agido mais rápido ou talvez se não tivesse feito nada.

Ele? Do que estava falando? Eu não entendia nada... Até que vi seu braço dobrado, engessado e sendo apoiado por um pano. O ar pareceu faltar naquele momento. O que diabos havia acontecido? Encarei seus olhos, pedindo uma explicação, engoli a seco e me obriguei a falar.

- Quem atirou?

Ele riu nervoso sem separar os lábios e negou. Ou não sabia ou não pensava em me dizer.

- Você deve ter visto alguma coisa. – insisti, sacudindo seus ombros suavemente. – Yeol, ninguém quer me dizer nada. Por quê? – ele manteve seu rosto imutável. – Foi... Tao?

Pestanejou, deixando que os segundos pesassem sobre meus ombros.

- Sinto muito. – disse e logo caminhou em direção ao grupo, com medo.

Sinto muito...

Havia sido ele?

Havia sido ele?

O que “sinto muito, não posso contar” queria dizer? Apertei os lábios, furioso. Com essas coisas não se brinca. Eu quase morri. De repente me lembrei do eletrocardiograma, dos apitos, uma figura dormindo sobre mim, o momento que compartilhei com Tao. Tao, Tao...

- Onde Tao está? – Grunhi, chamando a atenção dos garotos, que já haviam se acalmado e viraram-se pra mim.
- Não vimos ele. De fato...

- Ele já depôs. – disse Kai, secando o rosto com as mãos. – O vi saindo, mas não sei pra onde.

- Ele não tem mais um lugar. – Chanyeol sussurrou. – Deve estar zanzando por aí.

Kyungsoo e ele trocaram olhares, claramente se falaram, claramente sabiam de algo que eu não sabia e, pelo visto, eu não merecia ou não precisava saber no momento, provavelmente, o paradeiro desse garoto BH, o garoto do Chanyeol. Que sendo sincero eu já não ia com a cara, porque por culpa dele...

- Já terminamos tudo? – perguntei rouco. – Quero ir pra casa. - confessei.

- Eu provavelmente tenho que ficar. – sussurrou GaEul envergonhada. – Vão vocês.

- Noona. – Jongin chorou abraçando-a pela última vez. – Noona, mianhe, saranghae...

- Nado saranghae... – respondeu, beijando sua testa sonoramente. – Escute tudo o que Kyungsoo disser e não o perturbe. – sorriu. – Você deve tudo a ele, entendeu? E nunca me esqueça. – concluiu.

A saída da comissária foi um martírio. O Kai irritado e respondão parecia nunca ter existido. Agora só restava um estudante do ensino médio que chorava e apertava os dentes, escondido sob o abraço de Kyungsoo, que apertava os lábios como se os gemidos e gritos do outro destroçassem sua alma. E com certeza o faziam.

Chanyeol dobrou em direção a sua casa. Não sentia vontade de estar com ninguém, nem dar explicações; dava para notar por sua cara. O deixamos ir. Sua aura era escura e sombria. Estava se arrependendo de entrar no edifício para salvar o garoto? Aigoo, agora que ele vinha se arrepender... AGORA...

- Nós vamos pra casa. - disse Kyungsoo. – Tem certeza que você consegue ir sozinho? Não precisa de ajuda?

Olhei para Kai e neguei com a cabeça. Esse garoto estava muito pior que eu.

- Cuide dele, eu posso ir sozinho. Qualquer coisa eu paro pra descansar na calçada. – sorri apalpando seu ombro e logo abaixei, me aproximando de Kai – Ei, você... – ele me encarou ainda chorando. – Soo vai fazer o possível para te ajudar. Dessa forma, o agradeça e coopere também, sim? Sei que não deve ser fácil estar na sua pele... Mas aproveite que Soo tem paciência e gosta de você. – sorri. Ambos coraram. – Nos vemos.

Fingi estabilidade até vê-los desaparecer na esquina. Automaticamente me apoiei no tronco de uma árvore. Como eu estava tão fraco? Era melhor ter continuado no hospital. Talvez assim, agora poderia dar três passos sem me sentir tonto. Cada vez que apoiava a planta do pé, um calafrio me subia do calcanhar até a nuca, chegando em cheio na minha cabeça, como se estivesse de ressaca.

Encostado na madeira áspera e quebrada, eu tentei me tranquilizar. Inala, um, dois, três, exala, inala, um, dois, três... Bem, bem. Pisei lentamente, me impulsionando para frente. Perfeito, não fiquei tonto. Mais um passo, mais um passo, um, dois, um dois...

Caminhando como um pedestre normal, avistei uma figura negra sentada na ponta da calçada, na altura de minha casa. Deixei um riso bobo escapar, minha imaginação voava muito. Me aproximando dele, acabei por confirmar minhas suspeitas.

- Sinto fazer você esperar. – sussurrei com a voz rouca. – Estava... Ocupado. Todos nós estávamos.

Ele levantou a cabeça e sorriu tristemente. Não precisava perguntar, ele provavelmente já sabia onde euestava.

- Não tenho pra onde ir. – disse corado. – Estava pensando se... Talvez, só por hoje...

- Tudo bem, eu sei. Levante-se. – eu disse, me dirigindo até a porta de casa.

Senti seus passos atrás de mim e quando agachei para pegar a chave debaixo do tapete cambaleei. Rapidamente senti duas mãos segurando minha cintura. Sua respiração golpeava minha nuca. Ele acabou se enrolando ao tentar me segurar, suas mãos subiram por meu peito e me levantaram. Me senti um vovô.

- Deixa. Eu faço isso. – ele pegou a chave, logo girou dentro da fechadura, abriu a porta e se pôs ao meu lado. – Os donos primeiro. – sussurrou, insinuando com sua mão que era para que eu entrasse.

- Obrigado.

Quando fechou a porta notei que meu sonho estava praticamente se fazendo realidade. Tao, eu, sozinhos, em minha casa, dormiríamos no mesmo quarto, poderia finalmente explorar seu corpo, marcar cada um de seus poros com o cheiro de minha pele, com minha boca, minha língua, meus dentes. Me ericei completamente e logo recordei o estado em que estava.

Ia conseguir fazer pouco e nada, talvez nem meu “amiguinho” tivesse forças para despertar, depois de tanto esforço físico e mental utilizados na comissária e no caminho para casa.

- Você quer... Está...

Me virei e o vi esfregando as mãos, parecendo buscar algo.

-... Com fome? Eu posso fazer algo. – propôs.

Meu estômago gritou um “SIMMMMMM!!” com um grunhido ridiculamente alto, o que pegou eu e a Tao de surpresa. Este tapou a boca para não rir. Claro, há uma semana vivia de soro. Eu queria algo maciço, consistente, quente, pesado... Queria me empanturrar. Sem mais delongas, Tao pediu permissão quando o mostrei a cozinha. Encontrou pouca coisa, mas soube se virar. Em meia hora tive uma pequena salada como entrada, enquanto ele preparava a sopa. O contemplei enquanto ele parecia totalmente imerso em seu próprio mundo.

Ele sabe quais ingredientes precisa e adivinha onde estão os utensílios.

Parece uma dona de casa.

Falta um avental...

Que tape só a parte da frente...

E pra usar sem roupas por baixo...


Deixei esses pensamentos de lado quando ele se virou com a comida pronta, apoiou a panela e começou a servir com a concha. Eu tinha uma concha? Ah, sim eu tinha... Senti o calor brotar do prato e chocar contra meu rosto, o cheiro do caldo pareceu abraçar meu nariz e não fiz outra coisa senão suspirar maravilhado. O problema foi quando sorvi o líquido da colher, franzi até o... de tão ruim que estava. Ele me encarou com expectativa e fiz meu melhor esforço para engolir e não morrer intoxicado. Logo sorri e levantei um dedo em sinal positivo. Mas que porra, até pouco tempo o cheiro era fantástico.

- Não sou muito bom. – sim, eu percebi. – Quando vivia com... Um amigo, nós não tínhamos muito e saía o que dava. – se explicou.

Me senti tão mal que nos seguintes quarenta minutos botei três pratos de sopa pra dentro - ou o que seja esse líquido marrom fervendo - onde o macarrão boiava. Depois de uma semana sem comer (e depois do segundo prato) não estava tão ruim assim. Além disso, ele se esforçara tanto para que fosse “uhmmm... Delicioso”.

Olhei o relógio, já eram 12:00 PM. Haviam me retido por muito tempo na comissária e o jantar tardara em terminar. O encarei e arqueei as sobrancelhas. Tossindo um pouco, comprovei que poderia falar em um tom mais ou menos normal.

- Não faço ideia de como está o quarto. GaEul e Jongin se mudaram e...

- Vi um sofá na entrada, posso dormir ali. – disse, apontando para a sala.

Quase lhe grito: Tire tudo e vá pro quarto!

Mas tentei me por em seu lugar. Ele devia estar esgotado, físico, mental e emocionalmente. Digo, confessar tudo a polícia, relembrar tudo, não ter casa, buscar ajuda... Merecia descansar.

- Nada disso, você vai pra minha cama. Eu durmo no sofá.

- Mas...

- Sem mas. A casa é minha. – sentenciei. – Assim que, por favor, lavar os pratos, irei buscar roupa pra dormir.

Escutei o barulho dos pratos e levei todo tempo do mundo para subir as escadas. Quando cheguei ao guarda-roupa, peguei duas camisetas velhas e uma calça de ginástica, uma camiseta pra mim, outra para ele. A calça era pra ele, pois eu não conseguia dormir vestindo uma, e tampouco com camiseta, mas comecei a usar uma peça de ambas depois que GaEul chegou. Entendam, era minha casa, queria me sentir confortável.

Aigoo, ele vai querer dormir no sofá.

Apertei o passo como pude e o que vi me deixou sem fôlego.

Repito.

Sem.

Fôlego.

Aí estava ele - mais tranquilo impossível - caminhando pela sala e admirando o sofá... Sem camisa, nem calças, nem meias, nem colares, nem nada, pois tudo estava perfeitamente dobrado sobre o sofá.

- P... P..... P...!? Q... Q... Q!?

- Ah, queria te dizer que assim estou bem. – me falou. – Estou acostumado a dormir sem... Bem, você sabe. Você via. – agregou as duas palavras em um sussurro.

Num impulso o peguei pelo pulso.

- Não me orgulho disso. – confessei me aproximando dele e o encarando nos olhos. – Então, não volte a dizer essas coisas, por favor.

- Não se orgulha? – perguntou, levantando uma sobrancelha.

- Não. Agora não.

Desde o Céu, Deus estava dealguma forma sofrendo um ataque de misericórdia e piedade e estava me dando tudo que eu precisava e um pouco mais. Quem sabe entrar naquele edifício para resgatar ele e Yeol não tivesse sido tão má ideia... Viva o carma!

- Seu amigo me disse que você entrou pra me salvar. – sorriu timidamente, um pálido rosa se formou em suas bochechas. – Isso é... Verdade?

- Queria tirar você, Yeol e o pequenino de cabelo marrom... Mas originalmente ia por você. – sussurrei, encarando sua boca em sinal de antecipação.

- Ninguém nunca fez uma coisa dessas por mim. Nunca. – ele encarou minha boca em resposta. Quando seria o melhor momento para beijá-lo?

- Então... Me diga que outras coisas não fizeram por você. – sorri de canto. - Eu farei uma por uma.

Sim, sim, sim, já sei, muito brega, muito cafona. Mas, e se eu dissesse que com isso consegui que ele se atirasse em mim? Hehehe, agora posso escutar seus gritos abafados contra o travesseiro. Pervertidos, pervertidos everywhere... Como dizia, caí de costas no sofá com Tao por cima. Perdi a noção de tempo e espaço por alguns segundos, mas suas mãos acariciando meu rosto e cabelo, me trouxeram de volta a realidade. Sentia um de seus joelhos roçando entre minhas pernas, sua cabeça completamente inclinada enquanto sua boca buscava o melhor ângulo, seus cílios embaraçando-se com os meus.



UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION (Trad. em português) Capítulo 10
mascoteyeol
Capítulo 10
(Número de palavras: 3.224)



...Pip...

...Pip...

...Pip...

Contei quatorze “pips” de merda que perfuravam meus ouvidos. De qualquer forma, eu deveria me sentir grato, pois fora graças a eles que consegui tecnicamente “acordar”. Entretanto, eu sentia meus olhos pesados demais e estava fazendo (sem perceber) um enorme esforço para respirar, pois sentia uma pressão terrível no peito. Seria normal escutar os murmúrios dos médicos e os parentes dos pacientes contíguos, mas no meu caso reinava o silêncio. Eu por acaso estava em um quarto particular? Quis separar os lábios e gemer, grunhir, qualquer coisa que me fizesse escutar alguma voz em resposta. Será que alguém estava ali, apoiado na parede ou sentado ao meu lado, esperando que abrisse os olhos como nos filmes? E se realmente fosse assim, então, porque ninguém falava nada? Deixando de lado os filmes, eu não conseguia me concentrar em qualquer outra coisa que não fosse a horrível dor e o formigamento que picava em minha perna esquerda. Doía, ardia, eu sentia literalmente como se me faltasse uma parte da cabeça e se apertasse os dentes, o buraco ou o que quer que estivesse ali se mexia, preso a ataduras, provavelmente, encharcadas de sangue. Pelo menos eu controlava minha mandíbula, talvez saísse falando descentemente depois de tudo.

Apertei os lábios, sentindo-os secos e partidos, melhor, rachados. Ninguém havia batido em mim, mas minha bochecha esquerda doeu de uma forma que quase fez com que eu me retorcesse... Se eu conseguisse fazer isso é claro. Devia ter sido a queda, uff, que queda feia.

Me lembrei de tudo. Dispararam em mim? Sim, dispararam em mim... Por isso usava uma venda na cabeça. Estava grudada ao sangue do buraco que, com certeza, a bala tinha deixado. Depois disso caí? Sim, me recordo de ver sangue caindo de maneira vertical sobre minhas sobrancelhas e olhos, precisei fechá-los.

E depois? Depois... Não sei, “depois” é isso, este estado patético. “Depois” é um eletrocardiograma, dores de proporções consideráveis e essa maldita sensação de pressão no estômago. O que estava ali? Uma rocha, um mamute? Merda... Precisava abrir meus olhos... Era bem capaz de terem acertado mais de um tiro em mim, em meu fígado, pâncreas, não sei, precisava ver. E para ver precisava levantar minhas pálpebras, que no momento se sentiam como dois sacos de chumbo. Não sei quanto tempo levei para isso, foi pouco a pouco. Vi as pontas de meus cílios desfocados, e uma pequena linha de visão que não brilhava. Logo uma parede escura, meus pés e uma bola negra em cima de mim, tudo baixo a escuridão apenas iluminada pela luz da Lua.

Era de noite e eu realmente estava em um quarto particular. As cortinas estavam espalhadas para que entrasse um pouco da luminosidade externa, o farol ajudava pouco e nada com sua luz mortiferamente branca. Parecia dar a tudo um tom fantasmagórico, sinistramente branco. Girei meus olhos, não a cabeça, e observei outra cama na extremidade do quarto. Ao meu lado estava uma mesa de luz e em cima o soro goteava tranquilamente. Não consegui ver o eletrocardiograma nem nenhum outro aparelho, minha visão estava um cú, sendo sincero. Havia acabado de acordar, era de noite e não conseguia focar em nada pelos danos do disparo. Estava literalmente lesado.

Tão lesado que demorei em recordar o vulto negro em cima de mim. Optei por comprimir meu peito e tossir, tremendo a “almofada” (ou seja, meu estômago) do visitante. Este assustou-se com o barulho e lentamente se levantou, observando a sua volta com os braços pra cima e balbuciando palavras. O reconheci imediatamente.

Como se estava escuro e eu não conseguia focar em nada? Vocês perguntarão.

Fácil. Ele estava falando chinês.

E na Coréia do Sul eu só conhecia um moreno chinês.

Escutei como os apitos do eletrocardiograma subiam o volume e aumentavam o ritmo. “Pipipipipi....”, eu não conseguia acreditar, era bom demais pra ser verdade. Talvez eu estivesse morto e sonhando com isso!

- O que...? – Ele se virou em minha direção e seus olhos se cresceram.

Deixei um sussurro sair e sorri como um tarado. Wushu ZT, não... Tao estava ali. Dormindo sobre mim, esperando que eu acordasse.

- Acordou... – sussurrou, pude escutar sua voz sonolenta enquanto limpava a boca. Apertou os olhos e se aproximou de mim – O que houve?

Levantei as sobrancelhas sem entender.

- Está chorando. – disse – Aish, que viado. – senti seu polegar roçando embaixo dos meus olhos.

Era um presente do céu. Eu merecia? Pouco me importava, só queria que esse momento durasse. “Parem o mundo” queria gritar. “Parem o tempo”. Ele suavizou sua expressão e apertou os lábios; sua mão instintivamente moveu-se até meu queixo.

- Dói muito, não é? – apertei os olhos em sinal de afirmação, ele riu. – Imagino que por hora você não consiga falar.

Seu sorriso era triste, mas não era o que conhecia do dia na loja.

- Sabe... – usava um tom familiar comigo, me deixava louco vê-lo olhando para os lados, como se estivesse nervoso. – Acho que te devo um pedido de desculpas e um obrigado... Primeiro pelo da loja. É que, me entenda. – tossiu com a voz quebrada. – Existem milhares como você, todos os dias, que se aproximam de mim e querem... – tossiu de novo, queria chorar. – Aigoo, Deus. – riu e se virou, sentado na cadeira.

Secou as lágrimas em silêncio, não escutei um gemido, um suspiro, nada. Entretanto, a carência dos sons que significavam desabafo, doeu em mim mais do que qualquer tiro, qualquer buraco, qualquer osso quebrado. Reuni minhas forças e levantei os dedos de minha mão, um por um, para logo esticar todo o braço, sentindo o tremor e os músculos se contraindo. Não consegui chegar até suas costas, então puxei sua camisa preta três vezes, rogando sua atenção.

Ele virou em minha direção e pude ver seus olhos vermelhos, apertei os dentes. Ele parecia tão indefeso e eu não podia fazer nada para consolá-lo. Então fiz a única coisa que poderia fazer em um momento como esse. Lambi os lábios e busquei bem as palavras.
Liberando ar enquanto pronunciava; primeiro formei um “O”. Ele me olhou confuso, com o cenho franzido e envergonhado.

Logo segui com um “A”. Ele continuou não entendendo.

Agreguei um “i”, ele pareceu começar a entender.

Colei a língua no palato, ressaltando a consoante. E terminei com um “i”.

Ele tapou a boca, segurando um gemido.

Wo.

Ai.

Ni.


Simples assim, bem direto. Entretanto, isso não conseguia representar nem metade de tudo que eu sentia por ele. Mas o que eu poderia fazer? Meu corpo estava todo dormente, com sorte conseguia tossir. Ele estava chorando e eu não sentia vontade de falar, pois ver as lágrimas caindo de seus olhos quebrava minha alma, me debilitava.

Finalmente ele falou, me deixando chocado com sua resposta.

- Por que quando os outros me dizem isso sinto nojo... Mas quando é você...?

Não conseguiu terminar a oração, xingou e mordeu os lábios. Estava se redimindo, tinha medo de dizer? Por favor, não! Eu estava a ponto de tocar o êxtase da felicidade, estava a centímetros no Nirvana! Puxei mais uma vez sua camisa e ele voltou a me olhar nos olhos. Eram impactantes com uma tela no meio, já que paralisavam... Agora, geravam em mim descargas de tremores, cócegas.

“Wo”.

“Ai”.

“Ni”.

Voltei a dizer, esperando que ele entendesse que eu precisava de uma resposta. Não precisava repetir o que eu havia dito, mas... Pelo menos necessitava que ele dissesse algo como “vá à merda” ou, “sinto muito, eu não te vejo dessa forma”. Precisava de certa forma que ele ou rompesse meu coração, ou desse a maior alegria de minha vida, assim saberia se precisava continuar obrigando meu corpo a resistir ou se poderia deixá-lo descansar para sempre.

Entretanto, ele começou a ficar impaciente, respirando agitadamente, ombros tremendos e suspiros dolorosos.

- Basta. – me pediu. – Como eu dizia, sinto muito. E obrigado por...

“WO”

“AI”

“NI”, suspirei com força, quase falando. Ele apertou os dentes e choramingou, como se não quisesse acreditar em mim, como se tratasse de se convencer que era melhor me ignorar.

Mas ele não me ignorou. Porque seu rosto se aproximou do meu, unindo nossos lábios. Nosso primeiro beijo.

Que lindo soa, não é?

... Nosso primeiro beijo.

Minha boca devia estar com um gosto horrível. Meu hálito então, fatal. E meus lábios rachados com certeza raspavam nele, tadinho. Eu, no entanto, desfrutava de sua suavidade, da humidade morna, da delicadeza, pois ele estava me beijando com medo, com timidez. Logo a minha ficha caiu.

Vai saber a quanto tempo ele não dava um beijo de verdade... Um que ele quisesse dar...

Me apeguei a essa sensação. Era o primeiro em muito tempo, talvez não o primeiro, PRIMEIRO, mas o primeiro em muito tempo, sim senhor. Inclinei a cabeça para escutar o som de nossas bocas se buscando, a sua desesperada para voltar a se unir a minha, a minha dando toda a permissão do mundo para que ele fizesse o que sentisse vontade. O que fosse. E percebi que ele entendeu. Começou a fazer estalos, apertando meus lábios contra os seus, passando a língua suavemente, roçando seus dentes contra meu lábio inferior, apenas mordendo.

Uma de suas mãos acariciava meu maxilar. Quando a outra se afundou em meu cabelo, comecei a perder o controle. Comecei a apertar, morder, a vasculhar mais espaço para explorar, mais lugares onde pudesse conhecê-lo. Quis roçar minha língua contra seu lábio, mas encontrei sua língua no caminho... E aí, bom... O mundo inteiro fez Boom, e adeus corpo dormente. Meus braços se moveram sozinhos bruscamente como os zumbis que ressuscitam de suas tumbas e o segurei pelos bíceps, puxando-o em minha direção.

Queria tê-lo mais próximo, poder tocá-lo... Mas pude escutar o barulho do tecido de sua calça enquanto ele passava uma perna por cima das minhas, sentando-se sobre a maca. Sobre mim.

Não vou mentir, foi NESSE MOMENTO que eu mandei tudo a merda e até meu... Despertou, ok, voltando. Ele segurou meu rosto com força. Senti dor na testa e na bochecha, mas foda-se. Puta que pariu, Tao estava em cima de mim, meu membro estava tocando-lhe os glúteos!

Eu não conseguia falar, mas conseguia arfar, suspirar e gemer, pelo menos ele saberia o que causava em mim. Seus dedos se afundavam em meus cabelos e puxavam os fios. Sua mão livre acariciava meu pescoço e entrava por debaixo da bata, seus quadris impulsionando seu corpo para que se colasse mais ao meu, roçando em meu membro através da roupa e dos lençóis. Parecia um filme XXX, no meio do hospital, a maca rangendo por causa dos constantes movimentos e o eletrocardiograma alvoroçado, nos deixando ainda mais enlouquecidos.

Mordi e puxei seu lábio inferior, esticando-o consideravelmente. Ele cravou suas unhas em meu braço descoberto, dando justamente no músculo. Desde quando esse era um de meus pontos fracos? Tao era muito inteligente e eu não gostei nada disso. Por acaso essa era sua forma de agradecer? E se ele estivesse fazendo aquilo comigo para calar sua consciência e depois me deixar largado ali, sem poder vê-lo nunca mais? E se isso fosse como um presente para dizer “pronto, estamos quites”? Não.

Não, não, não, não. Eu queria mais que isso. Muito mais que isso.

O desejo de jogá-lo no chão continuava em minha lista de desejos, mas agora a imagem de poder abraçá-lo quando chorasse parecia muito mais importante. E não era só isso, queria beijar suas bochechas, queria bagunçar sua franja de brincadeira, queria olhá-lo nos olhos por minutos inteiros e não falar nada com a boca, e sim, contar tudo com o olhar. Queria rodeá-lo com meus braços e dormir assim com ele, queria despertar e vê-lo nu só pra mim, longe de filmes e atores... Longe das mentiras, de um mundo sujo e ilegal que nos arrastava cada vez mais pra dentro dele, nos levando até o fundo do poço.

Para, ordenei a meu corpo.

Pare agora, ele está brincando com você.

É uma mentira.

Isso não é real.


Ele pareceu notar, porque se agarrou ainda mais ao meu maxilar enquanto a outra mão descia de meus bíceps, passando por meu cotovelo e pulso, buscando meus dedos. Assim que encontrou, entrelaçou os seus aos meus. E eu pensei: Ou ele está tirando uma com a minha cara e sabe mentir muito bem... Ou o que está fazendo e sentindo é real. O que sente por mim, o que seja, é real.

Real.

Real.

Uma gota caiu sobre minha bochecha ferida, estava chorando de novo. Era tão fácil ler meus pensamentos? Ou ele estava imerso nos próprios? Quando o choro parecia incontrolável se afastou de mim, ainda sentado sobre minhas pernas. Afundou o rosto nas mãos e aí sim, soltou tudo, gemidos, soluços, ganidos. Ele estava em pedaços, talvez mais que eu.

- Sinto muito. – disse. – É o que posso fazer... Não sei... Não sei outra coisa...

Encolheu-se sobre meu corpo e eu deixei. Logo estendi meus braços chamando-o e ele se estirou pela maca, deitando-se ao meu lado, com a cabeça sobre meu peito.

- Olha o que você me faz fazer. – sussurrou com a voz quebrada, dedos desenhando círculos sobre meu peito, sobre meu coração. – E nem sequer sei seu nome.







Kyungsoo, Kai e GaEul se encontraram numa situação bastante constrangedora quando vieram nos visitar. Tao continuava deitado sobre mim e quando o despertei para que se movesse até eu entrei em choque, pois os lençóis estavam molhados... Por minha culpa.

- Minha nossa... Não sabia que você era dos rapidinhos. – disse Kai. – Dos que não duram. – depois olhou para Kyungsoo. – Ainda bem que você não tem esse problema.

GaEul bateu tão forte na cabeça dele que o fez chorar e Kyungsoo se escondeu no banheiro, corado, tremendo e com soluço.
- Consegue falar? – perguntou a noona. Neguei levemente com a cabeça, aquele movimento me matou. – Não sente a língua ou não tem voz?

- A língua com certeza ele sente, olha só como deixou a boca de Tao. – comentou Kai rindo. – Aigoo, bando de depravados...

-KKAMJONG!! – sua irmã gritou, logo depois se voltou para mim – Escute, vou fazer um resumo pra você. Já faz uma semana que está aqui, os doutores disseram que se conseguir caminhar e responder algumas perguntas eles te liberarão. – e a minha fala? – Se você não conseguir falar, vai ter que frequentar uma fonoaudióloga e uma especialista em traumatologia duas vezes por semana até que se recupere. – Ah.

Assenti. Parecia tudo bem pra mim. Nesse momento, Tao - que tentava recuperar a cor do rosto - tossiu.

- Acho que... Está na minha hora, vocês podem conversar melhor. – se levantou e me encarou, corado. – Eu irei voltar... Eles me deram o seu endereço, então... Enfim...

Meus olhos cresceram pela surpresa e GaEul me sussurrou um “de nada”, minha vontade foi de encher ela de beijos, sério. Tao saiu pela porta e Kyungsoo saiu do banheiro, ainda corado.

- Me desculpem, é que, ugh. – ficou ainda mais vermelho e tapou o rosto.

Kai correu para abraçá-lo.

- Tudo bem, o que tem demais falar para o mundo sobre seu forte, resistente e grande p...?

- Silêncio ou eu te tiro daqui. – GaEul grunhiu. – Há pessoas que não querem detalhes.

Alguém bateu na porta e sem que déssemos permissão de entrada uma doutora apareceu. Os garotos saíram.

Dependendo de como me movesse e respondesse, eu poderia sair ou não. E eu realmente queria ver Tao de novo. Mas na minha casa, no meu lugar, na minha cama.

Para terminar o que havíamos começado durante a noite.







GaEul segurava minha cintura, levando-me quase arrastado. Meu braço descansava sobre Kyungsoo e Kai vinha a nossa frente, virado para trás e me encarando divertido.

- Wow, eles acabaram com você. – comentou. – Te fizeram correr ou alguma coisa assim? Parece até que saiu de uma maratona.
Grunhi. Havia caminhado ao longo dos corredores do hospital e depois parara em um pé, durante trinta segundos, enquanto a outra perna dobrada formava um quatro, repeti a operação com a outra perna. Também havia feito um teste de visão (desses que tem desenhos de guarda-chuvas, macacos e maçãs cada vez menores e tive que responder fazendo mímica), deram-me um lápis e me fizeram responder um formulário para ver quanta pressão conseguia exercer com as mãos e também se lembrava do meu nome, idade, de onde vinha e etc. O resultado foi melhor do que esperava; conseguia suspirar palavras fracamente, então só iria à traumatologia uma vez por semana e na fonoaudióloga também, ou seja, uma sessão de quatro horas ao invés de duas de duas horas.

Na verdade, eu havia me saído muito bem; pusera todo meu empenho naquilo, pois queria sair relaxado dali. Os hospitais me deixavam nervoso e não queria todos aqueles exames a cada três horas, com mãos tocando em lugares que eu nem me animava em tocar. Mas depois de tudo pude relaxar. Eu estava débil, me sentia um fraco arrastando os pés e com o olhar perdido em um gnomo saltitante... Eh, quero dizer, em Kai.

- Chanyeol? – arquejei, lembrando-me que ele havia sido mais uma das razões pela qual havia entrado naquele edifício e terminado... Assim.

- Parem! – suspirei com a garganta seca e os olhos doendo. – Ele não está...?

- Não, não! – Kyungsoo se apressou. – Ele só está... Mal. Não se atreve a te ver ainda, tente entendê-lo. – tentou me consolar.

- Quem atirou em mim? Vocês sabem?

- É melhor que você não saiba agora. – disse GaEul, distante. – Vamos. – agregou me puxando.

- Esperem, esperem! E o garoto do Chanyeol?

- SERÁ QUE DÁ PRA VOCÊ PARAR DE PERGUNTAR E SE MOVER? – Kai gritou irritado. – Que droga, nós vamos te responder quando o momento certo chegar. Não seja impaciente. – concluiu e se virou, nos dando as costas.

Eu o encarei surpreso e tentei caminhar em sua direção.

- Pivete...

Tropecei em meus próprios pés, menos mal que me seguraram com força e me levantaram. Mas isso não ia ficar assim.
- Vamos pra casa, por favor. – Soo pediu com voz triste. – Yifan, Chanyeol vai te contar tudo quando estiver preparado, ok? Agora, apenas se concentre em suas feridas.

Assenti sem vontade e comecei a caminhar, pouco a pouco ganhando força e suporte nas pernas.

- Aliás, GaEul e Jongin já se mudaram pro meu apartamento. – Soo agregou. – E terminei minhas provas. – sussurrou corando. Eu o encarei surpreso. – Consegui. – sorriu. – A cerimônia é em uma semana.

Senti um imenso calor no peito e inclinei minha cabeça para que nossas testas encostassem levemente, sorri para ele e pisquei um olho.

- Estou orgulhoso. – disse. – Meu amigo, o inteligente. – ri toscamente.

Por dentro tinha o peito inflado, como o de um pombo orgulhoso. Ele pareceu me entender e deixou uma risada tímida escapar, entrelaçando nossos dedos sobre seu ombro. Merda, Kyungsoo era tão adorável... Eu deveria ter me apaixonado por ele... Mas agora tinha o pirralho e Tao, e com Tao, eu posso garantir que existem coisas que posso fazer que não faria com Kyungsoo por ele ser muito tímido. Já sabem... Jogos, disfarces... Enfim.

Dobrando a esquina, acreditei mais ou menos que estava voltando ao passado.

Havia um carro na frente de minha casa e policiais batendo na porta.

O que faziam, o que queriam, quem buscavam e a quem iam levar.

Eu não sabia.

Nem queria saber.



UNSTABLE-ENJOYMENT.COM – NET OBSESSION (Trad. em português) Capítulo 9
mascoteyeol
Capítulo 9
(Número de palavras: 1.697)



Vocês já viram aqueles filmes tipo Homem-Aranha, onde um excluído da sociedade, um fracote patético e ridiculamente vergonhoso se torna um super-herói valente, com poderes super wow e tudo isso? Bom, meu amigo Park Chanyeol provavelmente estava cego por estas ideias, um sonho assim... Eu queria matá-lo, queria espancar aquele estúpido.

Quero dizer, ele acabara de entrar em um edifício onde estava sendo realizada uma invasão, um confronto policial por prostituição, de vários menores inclusive. Estúpido! Nem que um sapo radioativo tivesse vomitado nele e ele houvesse adquirido o poder de “oh, sou o maioral, ninguém pode me atingir, salvarei o mundo”! ARGH!!

De qualquer forma, deveria ter alguém lá em cima. Eu precisava tirá-lo de lá. Algum maldito policial deveria vê-lo e reconhecer que ele era apenas um enxerido, um louco, o que for. Pelo amor de Deus, alguém deveria tirá-lo de lá a chutes no traseiro ou puxões de orelha... Eu precisava ver esse ser desajeitado de um metro e oitenta ser expulso de lá. Urgentemente!

Enquanto esperava, ansiava e cruzava os dedos mentalmente, não havia me movido em dois ou três minutos, deixei que o mar de pessoas me empurrasse para longe da esquina onde estava, devolvendo-me ao ponto de partida, na outra ponta da quadra.
Me xinguei por dentro quando notei minha posição. Precisava segui-lo, precisava chegar naquele maldito vigésimo andar e tirar todos de lá.

Chanyeol.

Seu garoto.

E Tao.

Mas eu não conseguia, porque minhas pernas fraquejavam. Eu tinha medo, medo de morrer, medo de que um tiro me acertasse em uma perna ou braço, medo de encontrar todos mortos, medo de também terminar na comissária... E os barulhos ensurdecedores que a multidão fazia não colaboravam.

O que eu faço? O que eu faço? O que eu faço?

Uma parte minha queria voltar pra casa e fingir que nada havia acontecido. Queria ir pra casa. Me cobrir até o nariz e dormir, depois acordar e acreditar que tudo não passara de um pesadelo. “Tao? Invasão? Pornografia? Não, não tenho ideia do que estão falando”, ou então, “Vocês não imaginam o sonho louco que tive! Parecia quase real! Deixem-me contar...”.

Um novo disparo me alertou, um vidro no quinto andar saiu voando em pedaços.

Quinto? Desceram?

Estavam tão próximos... Me incitavam a subir. Eu precisava ir. Mas minhas malditas pernas tremiam, não conseguia controlar meus braços que balançavam constantemente e a pouca força que armazenava precisava usar para que as pessoas não me arrastassem mais para trás.

Outro disparo. Juro que consegui escutar um grito.

Um grito...

- Chanyeol.

Uma rajada de adrenalina entrou por minha nuca e se espalhou rapidamente por meu corpo, enquanto sentia o sangue ferver em minhas veias, carregado de força. Recobrei a compostura e comecei a abrir caminho entre as pessoas, pisando e empurrando sem piedade, pois meu amigo podia estar...

... Morto, nesse prédio.

Observei ao redor, vários policiais haviam entrado depois dos tiros. Deus, eu estava me acovardando de novo. E se fosse Tao, quem disparava? E se Tao estivesse ferido? E se os oficiais que entraram tivessem atirado em Chanyeol, pensando que ele era um dos criminosos? Puta que pariu, eu estava quase chorando, precisava me conter.

Mais quatro disparos. Quatro.

O suficiente para acabar comigo.

Sem pensar, corri, rompi a faixa da polícia e dei passos bem largos atravessando os metros que nos separavam, pois eu estava na calçada da frente. Cruzei metade do campo em zigzag, literalmente ficando a vista de todos. Ao diabo a forma como Chanyeol tinha feito, eu precisava aproveitar enquanto meus joelhos me aguentavam em pé e meus pés firmavam no cimento a cada passo que dava.

Escutei um par de gritos das pessoas, alguns assoviaram, outros gritaram tentando chamar minha atenção. Pensei ter ouvido aplausos e mais de um oficial ordenou que eu parasse.

Vão à merda. Se os policiais não salvavam eles, eu mesmo faria isso. O que me custaria perder a vida tentando.

Chegando à recepção não vi ninguém. Muito bem, nenhum macaco iria aparecer do nada e saltar em minha cabeça. Muito bem, respira. Você ainda não morreu. AINDA NÃO.

As portas dos apartamentos estavam claramente fechadas, tentei entrar, mas haviam se assegurado de fechar todas. Não poderia conseguir nada como arma, nem uma faca, nem nada maciço. Não havia nem sequer um guarda-chuva no corredor, merda. Considerei a ideia de pegar o elevador quando me voltei para ele. Não, o número em cima indicava em que andar estava. Iriam me esperar com as pistolas apontadas.

Já havia passado pelo bairro onde Tao vivia e saído por pura sorte, não pensava em me arriscar novamente.

De repente uma ideia surgiu em minha mente. Chamei ambos os elevadores esperando que chegassem, com fortes pisadas no piso marrom escuro, encerado. Quando chegaram ao primeiro andar, coloquei metade do corpo dentro de um e apertei o botão cinco, para logo depois sair dele. Repeti a ação no outro elevador e comecei a subir pelas escadas. Ou seja, quem notasse o elevador em movimento, veria que os dois iriam abrir no quinto andar, onde antes foi possível ouvir os tiros. Os portadores das armas esperariam que os elevadores chegassem e não me perceberiam despontando pelas escadas.

Eu não me considerava um gênio, mas também não era estúpido, valia a pena tentar. No segundo andar o ambiente continuava morto, como se fosse um mundo paralelo ao do quinto.

O quarto andar me pegou de surpresa, havia uma pistola jogada no meio do corredor. De alguma forma eu tinha esperado isso, pois este era o último andar... Como dizer... “Calmo”.

- O que diabos você faz aqui? – sussurrei me agachando.

Agachado a peguei rapidamente e dei uma olhada. Uma arma, sozinha e descarregada? Voltei meu olhar para os degraus, esperando uma resposta e o que encontrei quase me fez vomitar. Uma policial mulher estava esparramada no chão, em uma posição que mostrava que ela tinha rolado escada abaixo. Provavelmente estava morta, pois havia um buraco enorme em sua testa, e seus olhos estavam abertos, assim como sua boca. A arma com certeza escorregara pela escada e terminara ali. Um dos “staffs” da página continuava ali, matando quem quer que cruzasse seu caminho, pensei.

O truque dos elevadores agora não me parecia tão inteligente. E se o cara estivesse pouco se fodendo pros elevadores e estava centrando justamente EM QUEM FOSSE SUBIR AS MALDITAS ESCADAS? Não poderia chamar os elevadores, talvez estivesse prestando atenção nos dois.

Puxei meus cabelos e mordi os lábios, aguentando a vontade de gritar. Parecia que tudo ia acabar mal, tudo, absolutamente tudo. Eu não conseguia pensar nervoso daquele jeito, era demais...

Uma pessoa pode jogar o Grand Theft Auto e dizer: “Fuck yeah, estou pronto para uma perseguição policial de verdade”, “Minhas habilidades no GTA me tirarão daqui”. Mas não se pode esquecer que eu não vivo de pixels e não posso reiniciar a missão ou a partida. Eu era de carne e osso, possuía um coração que batia descontroladamente, tinha extremidades que formigavam e uma vista que nublava pelo pânico. Porque essa era outra diferença que o personagem do jogo e eu possuíamos. Ele não tinha sentimentos que alterassem seu sistema nervoso e carecia de pensamentos desencorajadores, produtos de uma baixa autoestima.
Logo pude escutar algo, vozes apagadas, mas uma era claramente familiar. Chanyeol falava com alguém, melhor, gritava com alguém... Meus pelos se eriçaram.

- Me desculpe!!! OK?

“Me desculpe”?

Franzi o cenho. Este garoto estava vivendo um filme, um que ia terminar mal caso não se concentrasse. Continuou falando.
- Se você não cooperar, não poderemos sair daqui!

Ou ele estava com seu garoto, ou estava com Tao... Ou com alguém que houvesse se apoderado de sua compaixão. Mas, por que diabos, ele estava gritando? Puta que pariu, poderiam descobrir ele e matá-lo!

Park Chanyeol, irei te reduzir a pedaços se conseguirmos sair daqui.

Eu juro.


Segurei na arma com força.

Nem que seja para assustar, me disse encarando-a.

Levantando-me subi as escadas, evitando o corpo da mulher, até o quinto andar. O andar onde todos estavam, onde eu não me permitiria hesitar nem me assustar. Planejei tudo mentalmente antes de deixar que me vissem.

“Entre apontando a pistola, finja que tem balas, busque pelo canto dos olhos os garotos e fique na frente deles para facilitar o caminho da saída, não vire a cabeça, podem te matar”. Ah Deus, matar... Matar... Deixar de viver... Deixar de existir... Morrer... Não respirar... Não piscar... Não ser nada, só um cadáver, um corpo que poucos reconhecerão e chorarão no funeral. “Não. Não, concentre-se, não deixe as pernas tremerem! Controle a bexiga, controle seus olhos desorbitados! Foque, foque... Bem, não deixe que os pontos negros te distraiam, são somente nervos, somente medo... Medo de morrer. Puta merda!”.

Outra voz – esta, mais aguda – chamou minha atenção. Chorava, gemia e se chocava contra a parede.

- Não consigo! Não consigo! Não sinto minhas pernas!! – gritava apavorado. – Tenho medo...

Agora era Chanyeol.

- Eu sei, eu sei, mas você precisa me escutar, ok?

Eu tentava imaginar a situação. Estariam sozinhos? Eram eles que antes disparavam?

- Ei! – Chanyeol gritou, chamando a atenção desse alguém. – Olhe pra mim, eu estou aqui. Ah? Vamos, diga comigo: estou aqui para te ajudar.

Engoli a seco, subir ou não subir?

- “Estou aqui...”

Pude sentir as gotas de suor descendo por minha testa.

-“... para te ajudar”

-“... para me ajudar”

Endireitei-me, disposto a subir.

Esqueci de levantar a arma, estava concentrado demais nas vozes de Chanyeol e da outra pessoa. Inclusive, subi olhando em volta, nervoso.

- Yeol? Chan...?

Por isso não consegui ver, vindo em minha direção.

O projétil entrando em minha cabeça, golpeando e detonando uma série de explosões elétricas traves de todo meu corpo, impedindo qualquer tipo de movimento pela sobrecarga de estímulos.

Lembro-me de ter visto na parede do quinto andar manchas de sangue que não eram minhas, tudo girando noventa graus enquanto minha cabeça estatelava contra o chão e eu perdia a noção do que acontecia ao meu redor.

Acredito que escutei um “Yifan” também, bem longe, ao mesmo tempo em que o calor do sangue e os pontos negros me deixavam tonto e cobriam minha visão.



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